Brasil alcança o 6º mercado do mundo na venda direta

2 de março de 2020

Autor: Samuel Pimentel – 28/02/2020

No momento em que precisou de renda extra para auxiliar no orçamento familiar, a servidora pública, Gilvanda Severo, 54, passou a ser consultora de vendas de produtos O Boticário. Uma década depois de iniciar o trabalho, ela conta que expandiu a oferta e, além de perfumaria, passou a comercializar também roupas, há três anos. Hoje, o trabalho sustenta sua casa e o que era o complemento se tornou a renda principal da casa, apesar de ainda manter o emprego com carteira assinada.

E quando se fala em venda direta, modelo de negócios utilizado pelas empresas para comercializar seus produtos e serviços diretamente aos consumidores finais, sem necessidade de um estabelecimento comercial fixo, 82% dos que estão neste segmento trabalham para complementar a renda, segundo a Associação Brasileira de Empresas de Vendas Diretas (ABEVD).

Gilvanda, por exemplo, separa o seu dia em duas partes. Pela manhã trabalha na Prefeitura do Eusébio, onde mora, e, a partir da tarde inicia os atendimentos de clientes. A agenda desde então apenas cresceu, bem como o faturamento mensal. “O que ganho no emprego formal não é tanto e encontrei essa forma de aumentar minha renda”.

Em meio à crise no mercado de trabalho, em que a taxa de desocupação, mesmo em queda, alcança 11% dos trabalhadores, o movimento de empregabilidade é baseado no crescimento da informalidade. De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 54,9% da força de trabalho cearense é composta por trabalhadores informais. Fica atrás apenas de outros quatro estados: Pará (62,4%), Maranhão (60,5%), Piauí (59,5%) e Amazonas (57,6%).

Esse cenário tem feito os cearenses se voltarem para a vocação do empreendedorismo. Assim, surge como alternativa a venda direta, antiga comercialização porta a porta de produtos diversos, como de beleza, vestuário e saúde.

Professora dos cursos de Finanças e Economia do Campus Sobral da Universidade Federal do Ceará (UFC) e coordenadora do Laboratório de Estudos da Pobreza da UFC (LEP/UFC), Alessandra Araújo avalia que, nos últimos anos, há um processo de precarização do mercado de trabalho com o fechamento de vagas formais de emprego. Com o aumento dos autônomos, a venda direta é um nicho incluído nesse contexto.

Ela destaca que as pessoas são atraídas para esse mercado pela possibilidade de adequação ao melhor horário para a vendedora. “A flexibilidade é boa e dá conforto principalmente para as mães”. Nas vendas, a perspectiva positiva para a economia dá sinais positivos. Em fevereiro, as avaliações sobre o atual cenário financeiro pessoal, no Índice de Situação Atual (ISA) da Fundação Getúlio Vargas (FGV), aumentaram 2,2 pontos, indo para 80,9 pontos, o maior nível desde janeiro de 2015 (81,6 pontos). “A boa perspectiva é que os consumidores estão com melhores intenções de consumo, o que pode melhorar as vendas. Isso é uma boa notícia para todos”, complementa.

A presidente executiva ABEVD, Adriana Colloca, explica que, historicamente, em períodos de crise, as pessoas recorrem mais à venda direta. Mas, nos últimos anos, houve tendência de manutenção do número de consultores ativos no Brasil, muito baseada na expansão de outros negócios que envolvem empreendedorismo. Ela ainda ressalta que, com a crise, é notável que a proporção de pessoas que têm a venda direta como principal renda aumentou.

A face desses consultores é marcada por forte presença feminina e, destaca Adriana, há um rejuvenescimento no setor. Hoje, o Brasil é o sexto maior mercado em venda direta do mundo e, em 2017, movimentou R$ 45,2 bilhões. Isso acontece, principalmente, pela adaptação do segmento às evoluções tecnológicas, que mudaram a forma como as pessoas se relacionam. E o sucesso desses negócios está ligado à capacidade de relacionamento. “As mídias sociais em geral impulsionaram as vendas no setor. A tecnologia otimizou o trabalho de relacionamento dos vendedores, com indústria e clientes”, ressalta.

Participação

O volume de negócios da indústria de venda direta foi de R$ 45 bilhões, em 2018, e representa 8% do Produto Interno Bruto (PIB) da indústria de transformação no Brasil. O principal motor desse negócio é a atuação das empreendedoras independentes, que são 4 milhões no País.

Disrupção

Hoje, além dos apps que ajudam os empreendedores independentes na comunicação com as marcas (chatbot etc), as redes sociais são bastante utilizadas pela força de vendas para criar relacionamento com o cliente final, muitas vezes retirando a necessidade de precisar bater de porta em porta.

Fonte: O Povo