Aos 71 anos, o empresário paulista Guilherme Leal dedicou as últimas três décadas a uma jornada pelo desenvolvimento sustentável. Ele foi pioneiro ao imprimir na Natura, da qual é cofundador e copresidente do Conselho de Administração, valores em defesa do meio ambiente ainda nos anos 1990. A companhia é carbono neutro desde 2007 e criou um programa para direcionar investimentos para a Amazônia em 2011.

A sua atuação nessa área vai muito além da companhia, hoje com atuação global com as marcas The Body Shop e Avon. Leal é um idealista que gosta da ação. Na frente das mudanças climáticas, suas principais atividades se concentram no Instituto Arapyaú, uma rede de filantropia que identifica oportunidades e direciona recursos financeiros e estratégicos para projetos relacionados a mudanças climáticas, uso sustentável da terra, inovação em gestão pública e transformação das cidades. Também esteve envolvido na criação do movimento Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura, que reúne representantes da academia e de diversos setores em busca de propostas concretas para uma economia de baixo carbono. A Época NEGÓCIOS, o empresário deu a seguinte entrevista por e-mail.

Época NEGÓCIOS Temos visto uma mobilização empresarial mais ampla em torno da preservação ambiental no país. Qual é a consistência desse movimento?
Guilherme Leal Entendo que esse movimento veio para ficar e tende a crescer por três razões. A primeira é pela inexorabilidade da questão climática. Ela está acontecendo. A boa ciência atesta e as evidências empíricas são crescentes: secas prolongadas, invernos extremados, furacões, perda de biodiversidade. Com a mudança da administração nos Estados Unidos, temos os três maiores blocos econômicos avançando em seus compromissos com uma economia de baixo carbono. A segunda razão é que essa mudança eleva a pressão de diversos atores no sentido da adoção de políticas comprometidas com a redução de emissões. Investidores, países, blocos econômicos e, crescentemente, os próprios consumidores demandam das empresas compromissos sociais e ambientais. No Brasil, temos o bioma amazônico, que representa 60% do nosso território, um patrimônio riquíssimo que é nosso mas cuja conservação afeta toda a humanidade. Portanto, há uma pressão para que se avance com políticas que preservem o bioma amazônico. As empresas sentem que precisam se envolver para defender suas reputações, seus negócios. A terceira razão é que esses compromissos e avanços globais em torno da agenda do clima criam enormes oportunidades para o Brasil. Se olharmos de uma maneira inteligente, se formos construindo uma visão de futuro para a região, se criarmos oportunidades de vidas dignas, prósperas para os amazônidas, encontraremos muitas formas de atrair investimentos e promover desenvolvimento.

NEGÓCIOS Como o setor privado pode colaborar para acelerar a agenda ambiental, e como deve funcionar a parceria com o setor público nesse aspecto?
Leal O setor privado é onde a inovação toma corpo, onde a criação efetiva de valor acontece. Sem ele não faremos avançar a agenda socioambiental. Muitas são as formas de colaborar. O desenvolvimento tecnológico traz incontáveis possibilidades de construirmos um convívio mais harmonioso com a natureza. De avançarmos na rastreabilidade, na certificação das cadeias. A pecuária, a soja, por exemplo, são setores que têm uma contribuição enorme a dar em termos de rastreabilidade, de obediência à legislação, de inclusão das melhores práticas em suas cadeias. Há aí um grande espaço de colaboração. A indústria de base florestal tem uma enorme contribuição a dar nos desafios da restauração. O setor privado tem também um papel de apoiar ou pressionar governantes, que obedecem a seus próprios tempos políticos, tempo de seus mandatos, na assunção de compromissos de mais longo prazo. O setor privado pode e deve dar suporte para que os governos sejam mais ousados em seus compromissos e estabeleçam um framework institucional para que isso aconteça.

NEGÓCIOS Como está o diálogo com o governo hoje?
Leal Dialogar é nosso mantra, e governos democraticamente eleitos são sempre interlocutores indispensáveis. Assim, conversamos com os mais diferentes atores que compõem governos nos diversos níveis da federação, e nos diversos poderes. Esse governo, com sua política externa beligerante, sua falta de política ambiental, e com seu comportamento errático na coordenação da crise sanitária tem provocado uma enorme erosão da imagem do Brasil no exterior. Somos adeptos do diálogo, e dialogamos sempre com o governo constitucionalmente estabelecido, mas obviamente conversas só não resolvem, precisamos de atitudes, de bons planos, metas e boa execução.

NEGÓCIOS Como a marca Brasil pode se beneficiar de uma política ambiental bem-sucedida?
Leal Hoje, o problema de imagem do Brasil está fortemente associado à covid e ao desmatamento. Ambos, aparente ou verdadeiramente, fora de controle. Se, prioritariamente, conseguirmos acelerar um combate adequado à crise sanitária e reconstruirmos nosso capital de credibilidade na área ambiental, por meio de um combate efetivo ao crescente desmatamento ilegal e ações que estimulem o desenvolvimento de toda uma economia da floresta em pé, da restauração, poderemos aproveitar os diversos eventos da agenda de negociações climáticas para retomar um protagonismo e, com isso, desbloquear recursos para investir na conservação e no desenvolvimento da região. Seria muito bom para os negócios no Brasil, para as exportações do agronegócio, para atrair investidores, para acelerar a construção de uma infraestrutura verde, para todos. Agora, reputação se constrói ao longo do tempo, daí a importância de atores não governamentais serem fiadores de uma agenda de longo prazo. Uma coisa é certa: não dá para brigar com todo mundo ao mesmo tempo. Não vamos ganhar.

NEGÓCIOS Qual é o caminho mais promissor para conciliar floresta em pé e o crescimento econômico?
Leal Penso que um aspecto crítico para essa conciliação é mudarmos nossa percepção sobre o valor, a beleza, a inteligência contida na floresta. Outro ponto importante é percebermos os povos tradicionais como parte da inteligência a ser revelada, preservada e utilizada na construção de soluções inovadoras que conciliem qualidade das múltiplas vidas que habitam as florestas. Precisamos mudar nossa maneira de ver a floresta. Ainda estamos olhando para a floresta da mesma maneira que há 500 anos, com uma visão europeia de que a floresta é uma desorganização. Que precisa ser eliminada e organizada para que uma produção eficiente ocorra. Essa é uma visão que está ultrapassada. É uma visão que não reconhece a riqueza da floresta na sua interação com os humanos ao longo de milênios. Essas terras não eram desabitadas quando os europeus aqui chegaram. Temos de resgatar essa sabedoria, precisamos nos pacificar com a natureza, como ouvi outro dia numa entrevista do ex-presidente Juan Manoel Santos, da Colômbia, contando uma passagem com um líder espiritual indígena local que disse a ele: você conseguiu pacificar a guerrilha, mas não completou ainda sua missão de pacificar o país com a Natureza. Achei muito bonita aquela história. Outro fator a se considerar são os arranjos econômicos que reconheçam e remunerem a floresta — e seus guardiães — como prestadora de serviços ambientais de uma riqueza absolutamente fantástica. Essas coisas feitas, nós temos de entender também que as Amazônias são várias. A da floresta densa, que só precisa ser preservada, a da zona de transição, onde avança o arco de desmatamento e onde atividades de amortecimento precisam ser estimuladas. As áreas que pedem alguma forma de restauração. E finalmente os centros urbanos, que abrigam a maioria dos 30 milhões de pessoas que lá vivem em condições socialmente e ambientalmente inaceitáveis. Adalberto Veríssimo, do Imazon, autor dessa classificação, discorre sobre isso de maneira muito interessante.

NEGÓCIOS Por que poucas iniciativas de desenvolvimento sustentável na Amazônia ganharam escala até hoje?
Leal Penso que isso se dê por conta de várias carências. Carências institucionais, falta de governança adequada, da presença do Estado, de um sistema legal efetivo, da falta de conectividade e de infraestrutura básica, da falta de educação de qualidade. São múltiplas frentes, que tornam de fato difícil desenvolver e manter negócios bem estruturados, sejam eles de que natureza forem. É difícil prosperar em um ambiente com tanta falta de regras, com falta de uma governança adequada.

NEGÓCIOS Da sua experiência à frente da criação da estratégia sustentável da Natura há muitos anos, quais foram as dificuldades enfrentadas pelo caminho?
Leal A primeira dificuldade foi a da falta de bons exemplos sobre o que e como fazer. O estatuto legal, ainda por cima, tratava cientistas e pesquisadores como biopiratas, desestimulando o investimento em ciência e tecnologia, no uso sustentável de ativos. Tivemos de superar várias barreiras legais para conseguir avançar. Outra dificuldade era a questão logística, altamente complexa para fazer chegar o insumo vindo de uma reserva florestal ao local onde seria produzido. Houve também um desafio conceitual, de ajustar os processos produtivos de planejamento, que consideram e se harmonizam com o tempo das estações, com o tempo da natureza. Essa mudança do “mindset” foi uma coisa extremamente importante. Nessa convivência, tivemos de descobrir outra inteligência, que não é a cartesiana, e reforçamos a percepção da riqueza dessa rede de relações. A floresta como expressão de nossa crença da vida como fenômeno relacional. Estabelecer relações duradouras e produtivas com as diferentes comunidades, construir formas justas de definir preços e remunerar o conhecimento tradicional eventualmente utilizado também foram processos que demandaram abertura para o aprendizado, capacidade de cocriação, vontade de experimentar.

NEGÓCIOS Quanto de persistência é necessário para uma empresa se manter na jornada sustentável?
Leal Penso que as dificuldades não são pequenas, mas a recompensa é grande. Na nossa experiência, só posso dizer que tem sido gratificante, apesar de desafiador, se envolver nessa jornada de transformação, de fazer parte da solução e não do problema. Superar essas dificuldades e hoje compartilhar, inclusive com muitos parceiros tentando ajudar a mudar a cultura, é muito gratificante. Precisa ter, sim, determinação, um pouco de ousadia, mas diria que os resultados podem ser muito interessantes. Não vejo outra aposta a fazer.

Fonte: Época Negócios