O impacto da pandemia na vida das mulheres tem ganhado um novo e doloroso capítulo com a retomada econômica. Ainda mais sobrecarregadas, elas estão abandonando o mercado de trabalho, apesar da reabertura ou criação de vagas de emprego em diversos lugares do mundo.

Em entrevista à Folha, a diretora-executiva-adjunta da ONU Mulheres, a indiana Anita Bhatia, faz uma análise sombria das consequências que a crise sobre as trabalhadoras pode ter até para a recuperação econômica dos países em desenvolvimento.

“A carga de cuidados das mulheres é muito pesada —e elas já faziam três vezes mais do que os homens antes da pandemia. Agora, com crianças em casa, ensino remoto e outros encargos, mulheres têm abandonado o mercado de trabalho”, afirma. “E isso terá consequências de longo prazo nas suas rendas, vidas, perspectivas de carreira e, finalmente, terá impacto nos países, porque, se um número significativo da população não pode voltar a trabalhar por causa da carga de cuidados, isso é um problema real.”

Segundo dados da ONU, só na América Latina o número de mulheres fora do mercado de trabalho saltou de 66 milhões para 83 milhões com a pandemia, que atingiu com mais potência setores em que a força é predominantemente feminina, como varejo, turismo e trabalhos domésticos.

Além de mais violência, menos emprego e menos acesso à saúde, diz Bhatia, as mulheres têm sofrido com a segregação de gênero em relação a novos postos que surgiram no último ano. Muitas delas não têm acesso a ferramentas para o trabalho remoto e têm sido ainda mais marginalizadas.

Na avaliação da executiva da ONU, a reintegração das mulheres ao mercado de trabalho vai acontecer apenas onde tiver vacinação ampla e medidas de governos e empresas para facilitar esse retorno.
“Se não houver reconhecimento do vínculo entre a carga de cuidado e a capacidade da mulher de trabalhar fora de casa, não será possível mudar a vida delas.”

Nenhum país do mundo hoje pode alegar ter alcançado igualdade de gênero, e os números só pioraram na pandemia. Quais serão as principais consequências para as mulheres depois da crise? São três: renda, saúde e segurança.
Renda, porque muitos dos setores nos quais o emprego caiu tinham forte presença feminina, como varejo, turismo e trabalho doméstico.
Saúde, porque muitos países se voltaram apropriadamente para os gastos com Covid-19, e o acesso à saúde reprodutiva e materna, por exemplo, diminuiu.
Segurança, pois vimos aumento na violência contra as mulheres em todo o mundo, independentemente da classe social.
A carga de cuidados que as mulheres têm é muito pesada, e elas já faziam três vezes mais do que os homens antes da pandemia. Agora, com crianças em casa, ensino remoto e outros encargos, mulheres têm abandonado o mercado de trabalho.
Mesmo que os empregos tenham voltado, elas não voltaram, e isso terá consequências de longo prazo nas suas rendas, vidas, perspectivas de carreira e, finalmente, terá impacto nos países, porque, se um número significativo da população não pode voltar a trabalhar por causa da carga de cuidados, isso é um problema real.

É possível dizer que perdemos uma geração em termos de presença das mulheres no mercado de trabalho em um ano de pandemia? Não acho que chegue a tanto porque há diferenças entre países em desenvolvimento e os desenvolvidos. Nos mais ricos, vemos mulheres voltando ao mercado de trabalho em números não tão diferentes em comparação aos homens.
É nos países em desenvolvimento que a participação feminina na força de trabalho, que já era menor do que a masculina antes da pandemia, foi profundamente afetada. E há ainda a segregação ocupacional de gênero. Existem alguns trabalhos que você simplesmente não vê mulheres suficientes fazendo.
Temos que pensar sobre qual infraestrutura de apoio elas precisam para voltar ao trabalho, mas também sobre o direito de encontrar novos tipos de emprego para elas, incluindo os digitais [mais frequentes no cenário pandêmico e de novo normal].

Quando os índices de mulheres empregadas poderão voltar aos registrados pré-pandemia, e em quanto tempo a crise atrasou o caminho em direção à igualdade de gênero? É difícil medir, mas o caminho para a reintegração das mulheres na economia depende principalmente de duas coisas: vacinação e medidas do governo e de empresas que facilitem a volta delas ao mercado de trabalho.
Quanto mais rápido os países puderem vacinar suas populações e obtiverem imunidade de rebanho, mais rápido haverá reintegração. Se não houver reconhecimento do vínculo entre a carga de cuidado e a capacidade da mulher de trabalhar fora de casa, não será possível mudar a vida delas.
As mulheres trabalham em casa, mas não estão empregadas, não estão sendo pagas, é trabalho não remunerado. Para trabalho remunerado, alguém tem que cuidar dos seus filhos.
Os governos têm que subsidiar creches, tem que haver o reconhecimento da economia do cuidado, e as
empresas precisam reconhecer que as mulheres precisam de horários flexíveis. Se seu filho não está na escola, você não consegue trabalhar.

O abismo é ainda maior quando comparamos mulheres com filhos com o resto dos trabalhadores? Sim. O mundo foi dividido entre mulheres que têm carga de cuidado e mulheres que não têm. E não estamos só falando de filhos, às vezes são pais idosos, outros parentes, uma carga que sempre recai, ou principalmente recai, sobre elas.
E há também a divisão entre as que têm e as que não têm acesso digital. Surgiram tantos novos tipos de trabalho que podem ser realizados digitalmente. Mas, se você não tem um computador e acesso à internet, como você participa dessa economia?

Além das medidas de governo e das empresas, que tipo de mudança cultural é preciso para que homens e mulheres sejam vistos, igualmente, como cuidadores e provedores? A mudança de mentalidade é muito importante. A mudança de atitude também. É preciso começar bem cedo, com o currículo educacional. Igualdade de gênero não é uma questão das mulheres, é uma questão universal, tem que envolver homens e meninos, e mostrar que a masculinidade tóxica é uma coisa terrível.
A masculinidade positiva significa apoiar as mulheres. Para fazer isso, temos que ter bons modelos de líderes, no setor público ou privado, nas artes, na imprensa. Como a igualdade de gênero é uma questão de direitos humanos, é preciso ter certeza de que todos estão envolvidos.

Qual é o papel do governo nisso? É importante, porque é preciso compromisso político para impulsionar a agenda, mas também entender que seu país ficará mais rico se envolver totalmente as mulheres. Temos estimativas de que o mundo poderia adicionar US$ 13 trilhões ao PIB global se as mulheres estivessem igualmente engajadas como os homens.
Os governos devem garantir estrutura legal que apoie a igualdade de gênero, que as mulheres tenham um assento à mesa em todas as esferas-chave [em 2021, entre os 193 membros da ONU, apenas 13 têm ministérios com paridade de gênero].
O governo não pode ver a igualdade de gênero como uma questão para os marginais ou marginalizados, ou para “aquelas organizações de mulheres loucas”. Igualdade de gênero é um pilar fundamental de políticas públicas no país que quer crescer.

O Brasil despencou 26 posições no ranking global de igualdade de gênero em 15 anos e agora está em 93º lugar entre 156 países. Como um governo como o de Jair Bolsonaro, que não considera igualdade de gênero uma questão de política pública, contribui para esses números? Governos que não reconhecem a importância da igualdade de gênero como pilar do desenvolvimento terão dificuldade de fazer esse número melhorar.

Quais são as vitórias das mulheres nos últimos anos em termos de igualdade de gênero no mercado de trabalho? Finalmente temos uma presidente-executiva mulher em Wall Street [Jane Fraser, Citigroup]. Vimos a primeira mulher negra tornar-se vice-presidente nos EUA [Kamala Harris]. Existem alguns sinais visíveis de progresso, mas a linha de base é muito baixa. Celebramos coisas que deveríamos considerar garantidas em 2021, e ainda não temos salário igual para trabalho igual [entre homens e mulheres].
Adoraria ser mais otimista, mas vemos progresso porque começamos de muito baixo. A mudança relativa é boa, mas a mudança absoluta ainda é pobre.

Fonte: Folha de SP