Com base em 130 artigos científicos, pesquisadores brasileiros indicam os fatores que aumentam a desigualdade de gênero

A crise deflagrada pelo novo coronavírus escancarou desigualdades seculares. Entre as quais, a de gênero. Neste segundo ano de pandemia, as conquistas femininas no mercado de trabalho devem retroceder quatro anos, de acordo com um relatório da consultoria PwC. É a chamada “Shecession” (recessão feminina, em português).
Embora novo, o termo envidencia dificuldades enfrentadas pelas mulheres desde sempre, mas que, em meio à crise sanitária, ficaram ainda maiores. No ano passado, o risco de desemprego foi 80% maior entre elas, em comparação ao sexo masculino, segundo informações da McKinsey. E, se antes da pandemia, elas já gastavam em torno de 6 horas semanais a mais do que os homens nos afazeres domésticos ; com as restrições impostas pelo SARS-CoV-2, essa diferença subiu para 7,7 horas. O dado é da ONU Mulheres.

Para entender os principais fatores que impactam o bem-estar financeiro do sexo feminino, pesquisadores da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), de São Paulo, realizaram o estudo Women’s financial well-being: a systematic literature review and directions for future research. Para o levantamento, eles avaliaram quatro aspectos –individual, familiar, comunitário e social

Publicado no International Journal of Consumer Studies, o trabalho faz uma compilação de 130 artigos científicos, divulgados entre 1990 e 2020. Menor conhecimento financeiro, menor renda, empregos de qualdade inferior e o papel de cuidadora principal da família contribuem para uma redução do bem-estar financeiro feminino. Há de se levar em conta ainda, segundo a pesquisa, que as finanças da mulher sofrem influência das relações socioafetivas e familiares.

Como Virgínia Nicolau Gonçalves, uma das autoras do estudo, explica o conceito de bem-estar financeiro é amplo. “É a percepção do indivíduo sobre a sua própria vida financeira. O quanto alguém está satisfeito e seguro em relação à ela. Existe também a mensuração objetiva, na qual são considerados os indicadores de salário, renda e gastos”, diz ela.

Em relação às mulheres negras, os obstáculos são ainda maiores. Com menor escolaridade, socioeconomica e geograficamente mais vulneráveis, elas têm menos acesso às oportunidades de estudo e trabalho na comparação com as mulheres brancas.

A mulher como “cuidadora”
Já os elementos de nível doméstico, como o cuidado da casa, de crianças e da família, são tidos como pontos críticos, assim como a violência doméstica e a disparidade financeira. Para Virgínia, o papel social da mulher de dedicação à família e dos filhos diminui o engajamento dela no mercado de trabalho, o que também diminui sua renda, como consequência. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), as mulheres brasileiras dedicam 21 horas semanais à família. Os homens, apenas 11 horas.

“Em muitos casos, a mulher não cuida apenas dos filhos, mas também dos pais e dos idosos. Isso toma um grande tempo produtivo, que poderia ser gasto com estudos e trabalho”, ressalta a pesquisadora Virgínia. Há ainda fatores como regimes de pensões, licenças parentais, disponibilidade de creches e casas de cuidados para idosos, leis de herança e serviços financeiros, complementa.

Outros fatores de níveis comunitários e sociais apontam o trabalho informal, empregos de qualidade inferior e trajetórias de trabalho irregulares. Para Mateus Canniatti Ponchio, outro autor do estudo, as políticas públicas, iniciativas de instituições financeiras e as próprias mulheres desempenham um papel fundamental para mudar essa realidade. “Estudos como esse podem ajudar governos, ONGs e empresas sobre políticas futuras, até mesmo por meio de outros países mais desenvolvidos, para a redução da desigualdade de gênero”, diz Mateus. .

Para as empresas, a mudança na cultura organizacional também é bem-vinda. “As companhias podem adotar políticas mais inclusivas e que diminuam estereótipos de gênero. Na igualdade de gênero, o Brasil ainda engatinha”, argumenta ele.

Fonte: Época Negócios