Enquanto houve abertura de 230,3 mil vagas para homens, as empresas fecharam 87,6 mil postos ocupados por mulheres; pandemia ajudou a aumentar a desigualdade do mercado, apontam especialistas

BRASÍLIA – No ano em que o mercado de trabalho formal mostrou resiliência diante da pandemia de covid-19, com abertura de novos postos, as mulheres acabaram empurradas na direção contrária. Enquanto houve abertura de 230,3 mil vagas para trabalhadores homens, as empresas fecharam 87,6 mil postos até então ocupados por mulheres.

A desigualdade também é observada conforme a qualificação e a faixa etária do profissional. O mercado encolheu para quem tem ensino médio incompleto ou formação abaixo disso, mas expandiu oportunidades a quem tem ensino médio completo ou ensino superior. Na análise por idade, a abertura de vagas se concentrou em trabalhadores até 29 anos. Para profissionais acima de 30 anos, houve fechamento de postos.

Representantes do governo admitem que a pandemia acirrou as desigualdades, mas defendem uma observação da tendência de recuperação do mercado de trabalho para identificar a real necessidade de políticas voltadas ao combate dessas diferenças.

A coordenadora-geral de Cadastros, Identificação Profissional e Estudos da Secretaria de Trabalho, Mariana Eugênio, disse que o quadro tem relação com “questões estruturais”. Segundo ela, grande parte da força de trabalho feminina está no setor de serviços, um dos mais afetados pela crise provocada pela pandemia. “A expectativa é que, uma vez que a situação do mercado de trabalho volte à normalidade, mulheres também sejam beneficiadas nesse sentido”, afirmou.

Em relação aos trabalhadores mais velhos, Mariana ressaltou que muitos fazem parte do grupo de risco e enfrentaram restrições durante a pandemia.

O secretário de Trabalho do Ministério da Economia, Bruno Dalcolmo, reconheceu que a crise da covid-19 tende a acirrar questões de desigualdade no mercado de trabalho em todos os Países. “No nosso caso, principalmente, setores que se mantiveram muito ativos durante a crise são historicamente caracterizados por mão de obra masculina, como construção, por exemplo, e indústria e agricultura em menor sentido”, observou.

Por outro lado, Dalcolmo ressaltou que o programa emergencial para preservar empregos beneficiou principalmente o setor de serviços – que tem maior fatia de mão de obra feminina. Ele lembrou ainda que esses trabalhadores têm garantia provisória de emprego até meados deste ano, enquanto quem ficou livre de reduções em 2020 não têm a mesma proteção.

O secretário negou que o governo conte apenas com a recuperação do mercado de trabalho para atenuar essa desigualdade, mas ponderou que “não se faz política pública para situações pontuais, ocasionais”. “É preciso ter um diagnóstico mais concentrado de como o mercado de trabalho reagirá na saída dessa pandemia e como ele encontrará o novo normal. Se distorções forem geradas em demérito de públicos específicos, é claro que precisaremos avaliar”, disse.

O secretário especial de Previdência e Trabalho, Bruno Bianco, avaliou que o governo precisará analisar o impacto da crise em cada setor e, então, analisar o caso específico das mulheres. Ele defendeu também um olhar cuidadoso para a qualificação dos trabalhadores, em geral e especificamente de jovens e mulheres.

“Temos que olhar de maneira muito sensível para a qualificação profissional, e isso já estamos pensando, para recolocação em novos postos de trabalho. isso é fundamental. qualificação desse público específico, no caso mulheres e todos os outros, redução do custo de contratação, melhoria ambiente de negócios e maior segurança jurídica”, disse Bianco.

Fonte: Estadão