Vista com sinal de hospitalidade, fartura exigiu que famílias criassem formas de armazenar e aproveitar as sobras

“Melhor sobrar do que faltar.” Quem nunca ouviu essa frase durante os preparativos de um almoço de domingo? No fim do ano, então, lidar por dias a fio com as sobras de peru e presunto tender é um clássico da família brasileira.

Esse hábito de caprichar na quantidade de comida vem de longe e está tão entranhado em nossa cultura alimentar que deu origem a todo um delicioso receituário doméstico, baseado no reaproveitamento de sobras.

De quebra, moldou nossa paixão pelos potinhos plásticos para organizá-las na geladeira.

Quem tem não gosta de emprestar, e quem toma emprestado reluta em devolver, como canta a dupla sertaneja Victor Gregório e Marco Aurélio em “Devolve as Tupperware da Minha Mãe” (assim mesmo, no feminino, como também é comum falar) —se o relacionamento amoroso terminou, não tem negócio, precisa mandar os potes de volta.

Os potinhos plásticos fabricados especialmente para armazenar alimentos na geladeira (embalagens de sorvete ou margarina reaproveitados ficam fora dessa conversa) são uma novidade relativamente recente no Brasil.

“Antes disso, as pessoas guardavam as sobras em travessas, cobertas por panos sobre o fogão. Se precisassem de refrigeração, iam para a geladeira dentro de um prato fundo, com outro prato por cima servindo de tampa”, recorda a culinarista Bettina Orrico, 89, que se tornou responsável pela seção de receitas da revista Claudia em 1973.

Tudo mudou a partir de 1976, ano em que a norte-americana Tupperware chegou ao país. Os potes, que já faziam sucesso nos Estados Unidos desde os anos 1940, não eram vendidos em lojas, mas em reuniões vespertinas realizadas por grupos de mulheres.

O modelo também foi importado. Qualquer consumidora podia se voluntariar como anfitriã e chamar as amigas para o convescote. Enquanto tomavam café com bolo, elas assistiam às demonstrações conduzidas por uma representante da marca, sempre uma mulher.

Michi Kussuhara, 72, fez parte do primeiro time de representantes brasileiro, e lembra como os potes com tampas herméticas causavam estranhamento naquela época.

“A gente tinha que colocar líquido neles, fechar e chacoalhar, para provar que não vazavam. Oferecíamos bolachas que estavam guardadas por semanas nas caixas, para mostrar que continuavam frescas, mas às vezes uma dizia para a outra: ‘Você acredita? Vai ver ela comprou antes de vir para cá.’”

Os recipientes Tupperware acabaram se popularizando tanto que viraram nome genérico para qualquer pote de plástico com tampa. No Youtube, são tema de tutoriais que ensinam como organizá-los nos armários. Potes antigos fora de linha são anunciados como raridades vintage em sites como Enjoei e Ebay.

Até os restaurantes aprenderam a tirar partido dessa paixão pelos potinhos. Sócia do Boato, em São Paulo, Maria Carolina Warzée acondiciona os alimentos destinados ao delivery em potes de plástico reutilizáveis, que podem ser incorporados ao acervo doméstico.

Ela investe alto, mais de R$ 3 por embalagem, mas garante que vale a pena. “A avaliação dos clientes é muito positiva. Eles elogiam a qualidade das entregas e contam que continuam a usar os potes em casa. Eu mesma tenho vários”, confessa.

A experiência se repete entre a clientela do grupo Adega Santiago, que também inclui os restaurantes Taberna 474 e Arroz Malandro. Juntas, as seis unidades de São Paulo e Rio de Janeiro realizam 4.000 entregas mensais.

“Fizemos vários testes de embalagem e escolhemos os potes que melhoram a experiência do delivery. Na época, nem pensamos na questão da reutilização, mas ela acabou ganhando importância. Até nós, da equipe, adotamos em casa”, conta Vanessa Vignati, responsável pelo marketing do grupo.

A relação do brasileiro com a fartura à mesa pode estar na raiz dessa relação séria e ciumenta que estabelecemos com nosso acervo de potes.

Pesquisador da Embrapa, Gustavo Porpino conduziu um estudo sobre desperdício de alimentos em 2014, atualizado em 2018 e 2019, e constatou que os alimentos servidos em abundância, em travessas generosas, são vistos como sinônimo de hospitalidade.

“Na cultura latina e entre os povos do Oriente Médio e do sudeste asiático, comida sinaliza riqueza, receptividade e bem-querer”, resume.

Era assim na casa da chef Ana Soares, do pastifício Mesa III. Em Guararapes, interior de São Paulo, a família de origem italiana não regulava a quantidade de alimentos.

“A gente sempre tinha a comida da visita, mesmo que não houvesse visita alguma sendo esperada. Mas não havia desperdício, algo considerado pecado entre os imigrantes. Você tem que raspar o prato, jamais servir mais do que consegue comer”, lembra.

As sobras voltavam à mesa, mas nunca no mesmo formato —rejeitar comida requentada é outro hábito comum que Porpino registrou na pesquisa, realizada em residências de classe média baixa da zona leste paulistana e de Itapoã, região administrativa do Distrito Federal.

“Na minha casa, as receitas preparadas a partir das sobras eram sempre enfeitadas e viravam outros pratos”, diz Ana, que se declara fã das tigeladas e suflês.

“Ovos têm o poder de alegrar qualquer sobra. Você bate o chuchu cozido com um creminho de ovos, põe um parmesão e leva ao forno, fica uma maravilha.”

Também compõem o repertório os populares mexidinhos, que se valem de sobras de arroz, vegetais, carnes e o que mais houver à mão.

O site Panelinha, da apresentadora Rita Lobo, tem uma seção inteira de receitas dedicadas a eles —dá para transformar restos de espaguete em fritata, pão dormido em salada, e o feijão de ontem em bolinho.

Sobras podem ter até assinatura de chef. No quadro Sobrou pro Chef!, do programa Cozinha Prática (GNT), Rita desafia chefs famosos a criarem receitas a partir da reciclagem de ingredientes —e vai além, ensinando a deixar sobras de propósito, adiantando assim o preparo da próxima refeição.

Fonte: Folha de S.Paulo