Quando o assunto é varejo, a pandemia do coronavírus evidenciou o quanto a transformação digital é essencial para o futuro das empresas. Mas essa necessidade não é de agora. 84,4% das startups voltadas a atender o nicho da tecnologia para o varejo no Brasil foram criadas ao longo dos últimos dez anos, passando de 100 em 2011 para 644 em 2020. Isso faz do setor o segundo maior segmentos de startups do país, perdendo apenas para as fintechs. O número é resultado da pesquisa Distrito Retailtech Report Brasil 2020, realizada pela empresa de inovação aberta Distrito e divulgada na última terça (22).

 

As retailtechs – como são chamadas as startups do setor, unindo varejo (retail) e tecnologia (tech) – oferecem uma larga gama de soluções para o processo de venda de um produto ou serviço. Na pesquisa, elas são subdivididas em nove grandes categorias segundo a sua área de atuação: operações (que reúne 29,2% das startups mapeadas), engajamento do consumidor (19,1%), e-commerce (18%), pagamentos (12,3%), inteligência artificial (8,1%), logística (6,7%), internet das coisas (4,3%), ambientes virtuais (1,4%) e sustentabilidade (0,9%).

 

As mais populares, voltadas à operação, englobam gestão de lojas, inventário, estoques, vendedores e todo o processo comercial de empresas. Segundo Tiago Ávila, head de dataminer na Distrito, isso não se dá ao acaso, mas ao processo natural de digitalização de empresas: antes de iniciar uma mudança disruptiva, as empresas precisam adotar tecnologias que tragam eficiência em operações de rotina.

 

“A gente já via um cenário de transformação do varejo pelo novo padrão de consumo, que vem mudando drasticamente nos últimos 10 anos. Isso necessariamente faz com que grandes empresas de varejo comecem a se mexer e inovar para ir pro digital”, explica Ávila. “Algumas se adiantaram no movimento, como a Magalu. Outras empresas enxergaram esse movimento mais tarde e tentaram competir de igual pra igual, mas tudo dentro de casa tem um tempo de maturação — e uma alternativa que o mercado deu foi o contato com as retailtechs, trazendo tecnologia para dentro dessas varejistas”.

 

Destaques do setor

A pesquisa também aponta as dez empresas do setor que mais se destacaram no último ano. Para isso, é levado em conta um algoritmo que contabiliza número de funcionários, crescimento no ano anterior, faturamento presumido via análise do CNPJ, investimento captado, acessos no site e métricas de redes sociais.

 

As empresas de destaque são Loggi, VTEX, Peixe Urbano, Pic Pay, Ebanx, Stone, Hotmart, Amaro, Dafiti e MadeiraMadeira.”

A pesquisa também mapeia os principais investimentos na área nos últimos anos, apontando um boom em 2019. Isso se deu por captações de grande porte realizados por três empresas: a Loggi (US$ 261 milhões), a VTEX (US$ 140 milhões) e a MadeiraMadeira (US$ 110 milhões).”

“Para Ávila, a tendência para este ano de crise é voltar ao patamar pré-2019, em que o crescimento ano a ano era linear. “2019 teve grandes rodadas com três empresas que estão em um nível de maturidade superior às outras neste momento, e o ano foi bem propício economicamente com relação a venture capital. Em 2020, essas grandes rodadas tiveram uma diminuição por conta da pandemia. Entre 2016 e 2018, o crescimento era similar ao de uma escada, e a tendência é que 2020 e 2021 continuem nesse caminho”, aponta.

 

43% dos brasileiros não veem mais razão para comprar em loja física

Além do número crescente de retailtechs, o que aumentou também foi a demanda por suas soluções. Comparados aos mesmos meses de 2019, o comércio eletrônico brasileiro cresceu 209% em abril, 28% em junho e 19% em julho, segundo o estudo da Distrito.

 

Em pesquisa do Ipsos, encomendada pelo Google Brasil e revelada nesta quarta-feira (23), 54% dos entrevistados estão mais propensos em comprar lojas online agora do que antes da pandemia do coronavírus. A pesquisa ouviu de forma online mil pessoas em todo o mundo, incluindo o Brasil, entre os dias 27 e 30 de agosto.

 

Outro dado inédito da pesquisa aponta que 43% dos brasileiros não veem mais razão para comprar algo na loja física se é algo que possa ser comprado online, e metade dos entrevistados admitiram que é mais estressante fazer compras presencialmente do que pela internet.

 

Para Tiago Ávila, o e-commerce deixou de ser um diferencial das marcas para se tornar um commodity, e o futuro aponta que sai na frente quem oferecer as melhores experiências para o consumidor tanto online como offline.

 

“O e-commerce foi o pontapé inicial da transformação digital [das varejistas]. Agora, é necessário incorporar indicação [de produtos] a partir do padrão de consumo por meio de inteligência artificial. Uma parte mais distante mas também relevante é ter lojas autônomas [sem funcionários], expandindo sua forma de distribuição de produto sem aumentar capital humano”, sugere.

 

Fonte: Gazeta do Povo