Como o mercado de beauté está avançando para reduzir a produção e o impacto do descarte de resíduos no meio ambiente? A Glamour investigou

Escova e pasta de dentes, sabonete facial, sabonete corporal, creme hidratante, protetor solar, xampu, condicionador… Uma rotina de higiene e beleza simples envolve, ao menos, seis produtos. Pode reparar: a maioria deles, envoltos por lacres plásticos, seguido por embalagens similares. Engana-se quem pensa que o destino final delas está no lixinho do banheiro. Quando descartadas, vão parar diretamente em aterros sanitários ou nos rios e oceanos, desequilibrando todo o ecossistema. Por décadas, e em escala crescente.

Para ilustrar, vamos de números. No Brasil, mais de 80 milhões de toneladas de lixo são produzidas por ano, dos quais apenas menos de 3% são recicladas corretamente, segundo o Sindicato Nacional das Empresas de Limpeza Urbana (Selurb) e a Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe), respectivamente. Portanto, as pesquisas e ideias para a redução da produção de lixo e novas formas de minimizar o impacto da indústria da beleza no meio ambiente são urgentes.

Afinal, certamente parte deste contingente inclui os nossos recipientes de skincare, já que nosso País também é o quarto maior mercado de cosméticos e o quarto maior produtor de lixo plástico do mundo, de acordo com o Atlas do Plástico. Em casa, também vale exercitar o olhar para as escolhas. Dá para mudar o mundo com uma troca? Certamente, não. Mas demandas impulsionam mercados.

A piloto de avião Camila Villegas é uma das consumidoras que endossa o coro. A virada de chave na forma de se relacionar com os rótulos veio quando, em 2019, passou a sofrer com crises de acne depois de ter parado o anticoncepcional hormonal. Foi o start para adotar uma rotina completamente vegana, clean beauty e sustentável.

“O impacto que os cosméticos têm na nossa pele e no meio ambiente é enorme, porque usamos vários tipos de produtos todos os dias e a sociedade não dá a relevância necessária para o assunto”, argumenta Camila. As experiências são compartilhadas no perfil @skincarecomplantas no Instagram, onde soma quase 100 mil seguidores.

Mar de desafios

De acordo com a Anvisa, em 2020, 3.130 empresas de higiene pessoal, cosméticos e perfumaria foram registradas no País, sendo 205 delas novas indústrias. Esses números representam um crescimento de 7% em relação a 2019. Em 2021, cerca de 7.368 produtos foram lançados na categoria de cuidados pessoais, segundo a Mintel. Olha a quantidade!

Por aqui, a lei que institui a Política Nacional de Resíduos Sólidos determina que pelo menos 22% das embalagens comercializadas passem pela logística reversa, ao mesmo tempo em que a Anvisa ainda exige a embalagem secundária (cartucho ou caixa) de produtos vendidos em pontos físicos.

“O movimento rumo ao lixo zero no Brasil está bem lento”, lamenta a sócia e fundadora da CARE Natural Beauty, Patrícia Camargo. Quando falamos sobre salões de beleza, o impacto na natureza é ainda maior. “Em São Paulo, todos os dias são descartadas mais de 15 toneladas de papel-alumínio no lixo, em cerca de 65 mil salões”, esclarece Cris Dios, fundadora do salão Laces and Hair, em São Paulo.

Diante deste cenário, o número de marcas e grupos brasileiros que estão procurando por alternativas que garantam a conservação de recursos naturais e uma cadeia mais sustentável vem aumentando. Embalagens, matérias-primas e ingredientes de fontes renováveis, recicladas ou recicláveis poupam energia e recursos. Mas se a pauta é tão importante, por que ainda não encontramos prateleiras recheadas de produtos refiláveis, com plástico verde, embalagens de vidro ou vendas a granel?

Patrícia Camargo acredita que a resistência é fruto de uma combinação de fatores. “A urgência dos prazos para lançar produtos e competir no mercado é a primeira questão. Na minha empresa, levamos o dobro do tempo de uma marca convencional para desenvolver um produto. Às vezes, encontramos a fórmula perfeita, mas a embalagem não segue nossa agenda de compromissos e as grandes indústrias não podem se comprometer com esse tempo hábil. A segunda questão, sem dúvida alguma, é o custo, já que os maquinários dependem de matérias-primas específicas e os fornecedores ainda não têm uma gama tão grande de opções sustentáveis; as poucas que existem são mais caras”, explica.

Há esperança!

Apesar das dificuldades, o compromisso coletivo, que vai das labels independentes às gigantes do setor, vem se renovando. “Tenho visto novas marcas surgirem e, em paralelo, as grandes corporações também criam linhas com pegada sustentável ou compram outras empresas com o mesmo DNA. Além disso, a tecnologia avança para proteger a natureza a partir da criação de ingredientes semelhantes aos encontrados no meio ambiente, só que sem a exploração. Se todo mundo fosse usar óleo essencial de lavanda, por exemplo, não ia ter lavanda suficiente no mundo para atender a demanda, o que desencadearia um desequilíbrio ambiental. A indústria tem encontrado maneiras de melhorar a performance e fazer mais reduções necessárias”, nota Camila.

No Laces, outra empresa nacional, Cris Dios é exemplo para os empreendimentos do segmento e suas iniciativas já foram reconhecidas mundo afora. Neste mês, a empresária participou da COP27, conferência mundial das Nações Unidas que avalia a situação das mudanças climáticas do planeta, em três painéis sobre práticas sustentáveis. “Temos uma ferramenta que é reutilizável para mais de 2.000 procedimentos de luzes, o ‘roll meches’. Além disso, desenvolvemos uma coloração 100% à base de plantas, que não deixa rastro no meio ambiente e não polui a água”, exemplifica.

Outras marcas made in Brazil também já assumiram compromissos no mesmo sentido. Para citar algumas, a Natura, por exemplo, disponibiliza produtos refiláveis desde 1983. Desde 2015, também são utilizados vidros reciclados em algumas fragrâncias. Isso significa reduzir em mais de 350 toneladas, por ano, a emissão de gases de efeito estufa na atmosfera, além de dar vida nova a materiais que já foram usados antes. Falando em frascos, a Mantecorp compensa 122% de todas as embalagens que coloca no mercado e garante a reciclagem desses materiais. O processo de reciclagem ainda pode ser complementado com iniciativas como o Programa Boti Recicla, de O Boticário, que, desde 2006, realiza logística reversa em mais de 4.000 pontos de coleta pelo Brasil; também existem, em portfólio, 205 produtos com esquema de refil e 1.334 embalados com materiais reciclados. Sobre reaproveitamento, o índice de recuperabilidade das embalagens Hinode é de 96%. A marca também utiliza ingredientes e matérias-primas que reduzem o tempo de decomposição no meio ambiente.

Você sabe quais são as políticas de responsabilidade com o lixo do seu rótulo favorito? É tempo de pesquisar e contribuir com a discussão. Vamos juntas?

Fonte: Glamour