Indústria da beleza: o ti-ti-ti da venda porta a porta agora é pela web

2 de março de 2020

Empresas investem em tecnologia para aumentar a produtividade, criam vitrines virtuais e usam robôs para resolver pendências
 
Autor: Léo Branco – 01/03/2020 
 
SÃO PAULO – A história da paulista Carol Martins, de 35 anos, poderia ser a de mais uma influenciadora digital. Especialista em vídeos com dicas de beleza, Carol é acompanhada por cerca de 25 mil seguidores.

Mas há uma diferença na trajetória dela na comparação com a de uma influenciadora comum: ela revende os produtos que recomenda .

Ela trabalha com vendas diretas, um ofício que ganhou o apelido de “porta a porta digital”. Expõe os produtos numa loja virtual e passa o dia ligada no WhatsApp para tirar dúvidas de potenciais clientes.

— Às vezes recebo mensagens de telefones com DDDs de cidades que não faço ideia de onde ficam — diz.

Quando tinha 18 anos, Carol teve uma experiência com a venda direta tradicional, fora da internet. As vendas eram para vizinhos, que viam e tocavam produtos de uma empresa de cosméticos.

O setor de vendas diretas — incluindo a comercialização pela web e as tradicionais — vem chamando a atenção pelo crescimento. Em 2020, deve faturar R$ 46 bilhões, perto de 2,5% acima de 2019, diz a consultoria paulistana DirectBiz, focada em vendas diretas.

Embora ainda longe da expansão anual de dois dígitos típica de antes da crise de 2014, é mais uma prova da vitalidade do setor, cujo faturamento acumula alta de 8% em cinco anos — mais que o dobro da economia brasileira no período.

— A crise não bateu no porta a porta — diz Marcelo Alves, sócio da DirectBiz, para quem os investimentos em tecnologia ampliaram a competitividade das vendas em relação a outros meios como franquias ou o e-commerce.

Foco no relacionamento

Quem já tem tradição em vendas diretas aproveitou os últimos anos para ganhar eficiência com a tecnologia. Dona de uma rede de 1,1 milhão de revendedoras no Brasil, a fabricante de produtos de beleza Natura criou em 2011 uma plataforma virtual à disposição de suas revendedoras – é nessa espécie de “vitrine digital” que Carol exibe os itens que vende a seus clientes. Desde 2015, o sistema tem versão para celulares.

— Hoje, 80% das consultoras usam ferramentas digitais — diz Luciano Abrantes, diretor de tecnologia da Natura.

Segundo a empresa, a tecnologia aumentou em 15% a produtividade das revendedoras, que agora perdem menos tempo em tarefas como despachar pedidos à matriz ou controlar o fluxo de entregas.

O avanço das vendas diretas atraiu mais empresas nos últimos anos. Segundo a DirectBiz, 153 companhias usam o método para chegar ao cliente final, uma alta de 7% desde 2016.

Ao que tudo indica, o perfil de quem chegou agora em nada lembra o do porta a porta tradicional. É o caso da fabricante de cosméticos Mahogany, um negócio com receitas anuais ao redor de R$ 150 milhões.

No início de 2018, a empresa estreou nas vendas diretas com um “escritório virtual” em que as revendedoras resolvem burocracias como mandar pedidos à sede, em Osasco (SP), ou baixar versões digitais dos catálogos de produtos. Nos próximos meses, a ideia é colocar no ar um sistema para clientes e revendedoras fecharem negócios pelo WhatsApp.

— A venda direta por revistinha não funciona mais num mundo digital — diz Darlene Alves, gestora na Mahogany.

Os investimentos em inovação nas vendas diretas abriram as portas para negócios tipicamente digitais. Um exemplo é a Wavy, projeto dos mesmos sócios do aplicativo de comida iFood, que é voltado a softwares de inteligência artificial para automatizar o contato de empresa e cliente.

Nos últimos três anos, os desenvolvedores da Wavy criaram um robô virtual chamado Bela para automatizar a relação da gigante de cosméticos Avon com 1,3 milhão de revendedoras espalhadas pelo Brasil.

— Pela tecnologia, a revendedora pode conversar com o robô nas redes sociais da Avon para resolver tudo; antes precisava ligar para um call center —diz Juliana Frediano, gerente da Wavy, citando a emissão de segunda via de boletos ou o pagamento das encomendas feitas pelas revendedoras.

Com tanta tecnologia, fica a pergunta: até quando haverá espaço para os humanos no porta a porta? Por ora, o volume de empregos no setor segue em 4 milhões, o mesmo patamar de antes da crise.

— A venda direta é, por excelência, um comércio feito à base de relacionamento — diz Adriana Colloca, presidente da ABEVD, associação de empresas do setor, que inclusive teme a falta de mão de obra nas empresas do porta a porta em razão da concorrência com aplicativos, como Uber, iFood e Rappi.

Fonte: O Globo