Sinais de recuperação da economia, vacinação avançada, pacote trilionário do governo e resgate das políticas ambientais fazem empresas brasileiras aumentar a aposta nos Estados Unidos.

Nos últimos 15 meses, o CEO global da Natura&Co, o executivo Roberto Marques, dedicou boa parte de seu expediente a duas grandes missões dentro da companhia cinquentária fundada por Luiz Seabra, Pedro Passos e Guilherme Leal: consolidar a aquisição da americana Avon e fortalecer os negócios em mercados-chave para o grupo, especialmente nos Estados Unidos. A primeira missão, concluída no ano passado, criou o quarto maior conglomerado de beleza do mundo. A segunda está em pleno curso. A partir de seu home office em Jersey Shore, região litorânea no estado de Nova Jersey, a uma hora de Nova York, Marques orquestra a expansão das marcas do grupo – especialmente The Body Shop e Aesop – Estados Unidos adentro. Por lá, a divisão chamada de Natura USA está em fase de startup, com um modelo comercial diferente do da América Latina.

O plano é focado em pop ups stores com alguns parceiros pontuais e, principalmente, em estratégia digital, com parceiros de on-line retail, como Amazon.com e Skinstore.com. “Nosso desafio é sempre equalizar a expansão no Brasil e no mundo com as novas demandas globais por inovação e consumo consciente”, afirmou Marques à DINHEIRO, em 2020, ano em que a Natura USA lançou 21 campanhas e 76 novos produtos para o consumidor americano. Atualmente, o portfólio local é composto por 140 itens.

“Atuamos nos dois maiores mercados imobiliários do mundo ocidental. O PIB da Flórida, Geórgia e Texas é de US$ 3,5 trilhões, o dobro do brasileiro” Rafael Menin CEO da mrv (à esq.)

Embalada pelas boas perspectivas de recuperação dos Estados Unidos, que hoje está com a vacinação em estágio avançado e receberá do governo Joe Biden uma injeção de mais de US$ 2 trilhões na economia e que recuperou suas políticas ambientais – após o fim do governo Donald Trump –, diversas empresas brasileiras estão seguindo os passos da Natura e aumentando suas apostas no mercado americano, tanto as que já atuam no país há mais de uma década, como a JBS, quanto as que estão no início da caminhada, como a MRV Engenharia. Soma-se a isso o fato de que a economia americana também sofreu o impacto da crise global, ajudando a reduzir o preço de ativos e abrindo oportunidades de negócios. Por isso, a MRV comprou por US$ 235 milhões a AHS Residential, uma companhia de menor porte especializada em incorporação, construção e locação de unidades para a classe média. Desde o ano passado, as operações chegaram a 18 cidades, distribuídas também pelos estados da Flórida, Geórgia e Texas. Juntos, esses estados têm um Produto Interno Bruto (PIB) de US$ 3,5 trilhões, mais que o dobro do brasileiro, de US$ 1,3 trilhão. “Estamos atuando nos dois maiores mercados imobiliários do mundo ocidental”, afirmou à DINHEIRO Rafael Menin, CEO da MRV.

O otimismo está em alta. A empresa brasileira pretende investir US$ 247 milhões em três anos para a expansão dos negócios, voltados à classe média, com salário médio anual de US$ 60 mil. Em janeiro deste ano, a AHS realizou a primeira venda desde que se tornou subsidiária da MRV. Com 281 apartamentos, o condomínio Deering Groves, em Miami, foi negociado por um Valor Geral de Vendas (VGV) de US$ 57 milhões, o que resultou em uma geração de caixa de US$ 21 milhões e lucro bruto de US$ 16,5 milhões. O empreendimento integra um grupo de sete a serem comercializados. Os seis restantes devem ser negociados com investidores brasileiros. São 1,4 mil apartamentos no total. O VGV total dos sete condomínios é de US$ 306 milhões.

Além de atender ao público local, a MRV pretende atrair também os brasileiros e outros imigrantes que vivem lá. E não são poucos. O Pew Research Center, organização situada em Washington que desenvolve conhecimento sobre temas políticos, econômicos e científicos, estima que, anualmente, 1,2 milhão de pessoas chegam ao país com a expectativa de recomeçar a vida e até mesmo investir. O número total de imigrantes é de cerca de 44,4 milhões (inclui ilegais, temporários e permanentes legais, além de naturalizados) ou pouco mais de 13% da população americana – estimada em 333 milhões. E a expectativa de crescimento move também muitas empresas brasileiras, que, diante da histórica volatilidade do mercado nacional, vislumbram na maior economia mundial a chance de expandir os negócios.

A julgar pela vontade das empresas brasileiras, não faltarão oportunidades de negócios. Desde outubro, um dos maiores bancos da Flórida, Banco America Central (BAC), pertence oficialmente ao Bradesco. Por US$ 500 milhões, o banco comprou a instituição financeira americana com US$ 2,2 bilhões em ativos. A meta, segundo o Bradesco, com sede em Osasco, é servir aos clientes brasileiros do banco que queriam comprar imóveis ou investir nos Estados Unidos e também atender os latino-americanos. Devido à pandemia, a obtenção das licenças pelas autoridades americanas demorou mais do que o esperado, e só em outubro passado o Bradesco BAC Flórida pôde começar a operar a plena capacidade. Mesmo assim, os objetivos são ambiciosos. Segundo o diretor-executivo do Bradesco Leandro de Miranda Araújo, que é responsável pela unidade americana, a meta vai além de conceder empréstimos e cartões de crédito para os clientes locais, mas também permitir-lhes acesso aos investimentos diversificados no mercado americano. Os brasileiros são 20% da clientela, disse Araújo. O banco só vai passar a abrir seus números quando divulgar as informações referentes ao primeiro trimestre de 2021.

“Aceleramos o crescimento na América do Norte, um dos nossos principais mercados, e continuaremos a criar valor para os clientes” Gustavo Werneck CEO da gerdau.

EM CASA Se para MRV e Bradesco os Estados Unidos são uma casa nova, o mercado americano é velho conhecido do frigorífico JBS, onde atua desde 2007. O país representa 49% da receita global, de R$ 270,2 bilhões em 2020, crescimento de 32,1% na comparação com 2019. A JBS USA Pork (divisão de carne suína com atividades apenas no país), faturou US$ 6,2 bilhões no ano passado. Já a JBS USA Beef, que possui operações nos Estados Unidos, no Canadá e na Austrália para a produção de carne bovina, teve receita de US$ 21,7 bilhões; e a Pilgrim’s Pride, que fabrica frangos e suínos nos Estados Unidos, México e Europa, vendeu US$ 12,1 bilhões.

A expectativa da companhia é que os bons resultados continuem em 2021 em todas as divisões de negócios nos Estados Unidos, segundo o CEO global Gilberto Tomazoni. Em teleconferência com analistas, os executivos da JBS se mostraram motivados com a retomada da economia local. Segundo o CEO da JBS USA, André Nogueira, a reabertura dos food services – serviços de alimentação ao cliente – entre maio e junho deve impulsionar os mercados interno e externo, que apresentam demanda muito forte. Já Tomazoni se diz confiante no crescimento das marcas que englobam o portfólio da JBS. Ele destacou lançamento de 1,4 mil novos produtos no mundo em 2020. “Nosso foco é virar uma casa de marcas com o objetivo de ter ao menos dez com mais de US$ 1 bilhão de faturamento cada até 2030.” Seriam ao menos US$ 10 bilhões – cerca de R$ 56 bilhões ou 20% da receita global da empresa, que tem cerca de 250 mil colaboradores distribuídos em 450 unidades e escritórios em 20 países.

Para atingir o objetivo, a companhia mantém o plano de expansão, e a JBS USA iniciará, no mês que vem, as operações de uma nova fábrica para a produção de bacon – os detalhes ainda serão divulgados. No ano passado, apesar da pandemia, a JBS comprou a empresa americana de produtos prontos para consumo Empire Packing, por US$ 238 milhões. “A aquisição nos colocou numa posição relevante na categoria”, disse Tomazoni. A Empire possui unidades de produção em Olympia (Washington), Denver (Colorado), Memphis (Tennessee), Cincinnati e Mason (Ohio).

OPORTUNIDADES E DESAFIOS Como é sabido na cartilha dos investidores, as oportunidades de ganho são diretamente proporcionais aos riscos. E os números corroboram isso. A Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex) mapeou ao menos 500 empresas brasileiras em atuação nos Estados Unidos. E concluiu: os desafios atuais na Terra do Tio Sam não são poucos. A começar pela redução histórica de 3,5% (ou US$ 500,6 bilhões, para US$ 20,9 trilhões) do Produto Interno Bruto (PIB) americano em 2020, impactado pela pandemia. Foi a pior marca desde 1946, no pós-Segunda Guerra Mundial, quando a retração chegou a 10,9%. Isso após um crescimento de 2,2% em 2019, o que marca a primeira queda anual do PIB desde a crise de 2007.

Os efeitos da Covid-19 se estenderam ao comércio bilateral entre Brasil e Estados Unidos. O intercâmbio registrou US$ 45,6 bilhões, uma queda de 23,8% na comparação com 2019 e pior marca desde o período 2007-2009. Para efeito de comparação, as trocas entre Brasil e China, nosso principal parceiro comercial, chegaram a US$ 101,7 bilhões. Os dados são da Câmara Americana de Comércio para o Brasil (Amcham). As exportações e importações também foram afetadas. O Brasil enviou aos Estados Unidos US$ 21,5 bilhões, volume 27,8% menor do que em 2019 e o pior resultado desde 2010. E chegaram ao País US$ 24,1 bilhões, diminuição de 19,8% em relação ao ano anterior e menor índice desde 2009.

Pelas perspectivas da Amcham, a ampliação da vacinação e a retomada econômica americana – o Fundo Monetário Internacional (FMI) prevê crescimento de 6,4% nos EUA neste ano – devem impulsionar as exportações brasileiras durante 2021. Já as importações (inclusive dos EUA) tendem a aumentar sob efeito do câmbio (em torno de R$ 5, mais atraente do que a média de R$ 5,15 de 2020), combinado com a expectativa do FMI de alta de 2,8% do PIB do Brasil.

Outra gigante brasileira empolgada com o maior mercado consumidor do mundo é a gaúcha Gerdau, que pretende investir R$ 3,5 bilhões neste ano. Nos Estados Unidos, a companhia aposta no pacote trilionário do presidente Joe Biden e na recuperação da indústria automotiva para expandir os negócios, além de destacar a tendência de crescimento na produção de veículos híbridos e elétricos na América do Norte. Esse movimento impacta diretamente no desenvolvimento de aços cada vez mais limpos e mais leves, que serão produzidos na unidade em Monroe, nos Estados Unidos. “Aceleramos o crescimento em mercados atrativos da América do Norte, um dos nossos principais mercados e continuaremos a servir e a criar valor para os clientes do mercado da construção, equipamento industrial, transporte e energia”, disse o CEO Gustavo Werneck.

Fonte: IstoÉ Dinheiro