Um dos muitos hábitos que a quarentena para conter a disseminação do novo coronavírus transformou foi a relação dos belo-horizontinos com a cozinha. Com mais tempo dentro de suas próprias casas, muita gente que fugia do fogão acabou se rendendo às receitas – e aos infindáveis programas de culinária da TV. “Antes da pandemia eu só sabia cozinhar o básico”, confessa a designer de interiores Priscila Sathler. “Hoje, faço jantares elaborados duas vezes por semana.” Na casa da Priscila, o que começou como uma forma de tentar comer bem mesmo com os restaurantes da cidade fechados acabou se tornando um momento de confraternização em família. A designer se inscreveu em uma confraria on-line realizada às quintas e aos domingos. As receitas são produzidas a várias mãos. Dividem-se entre as caçarolas ela, o marido e as duas filhas, de 20 e 13 anos. “A gente conversa, toma um vinho (só os adultos, claro), experimentamos condimentos, sabores. Se tornou um momento de união”, diz. A paixão pela gastronomia foi tanta que a família decidiu se mudar para um novo apartamento e investir em um espaço gourmet. “Eu mesma estou projetando e vou comprar utensílios, torneira, jogo de panela. Quero tudo novo e muito bom”, planeja. A ideia é manter o hábito mesmo após a pandemia. “E queremos expandir assim que for possível, chamar os amigos.”

Pessoas como Priscila, que encontraram na cozinha uma forma de relaxar em meio às angústias do isolamento, foram responsáveis pelo aquecimento do mercado especializado em panelas e artigos culinários, que viu a procura disparar no último ano. Proprietário da Cozimento Saudável, distribuidora autorizada da Royal Prestige, Henrique Madureira conta que as vendas cresceram 118% nos primeiros cinco meses de 2021, em relação ao mesmo período do ano passado. Como os produtos feitos pela marca têm a proposta de promover uma cozinha saudável – as panelas são feitas com aço cirúrgico, que não libera resíduos nos alimentos e dispensam o uso de óleo nas receitas –, o empresário atribui a alta à busca crescente das pessoas por saúde, e também à redução de gastos com restaurantes e viagens. “Alguns clientes tinham potencial para comprar, mas não investiam nisso. Agora investem. Não perco mais venda para uma viagem à Europa”, diz.

O empresário Thiago Nunes, sócio-proprietário da Tool Box, também viu as vendas dispararem, especialmente pela internet. O Instagram da loja saltou de 70 mil seguidores para 203 mil apenas neste ano. Thiago lamenta que o crescimento tenha se dado em um momento de tanto sofrimento no mundo, mas compreende que a paixão pela cozinha ajudou a tornar a pandemia um pouco mais leve para muitos. “Não vejo como motivo de comemoração, em meio a tantas perdas e dificuldades”, afirma. “Mas a cozinha foi uma saída terapêutica para ajudar a passar por isso. Virou uma das alegrias durante esse período obscuro.” Ele conta que muitos clientes tinham funcionários para cozinhar em casa e, com a pandemia, precisaram colocar a mão na massa. “As pessoas se voltaram para a cozinha e viram que estavam com equipamentos obsoletos”, diz. “Tivemos aumento significativo na procura de itens básicos, como frigideiras, conjuntos de panela, utensílios.” O perfil da clientela também está mais diversificado. “Além do nosso cliente tradicional, da classe A, temos pessoas que agora fazem uma força a mais para comprar um produto de alto nível.” Sócio-diretor da Laville, rede de lojas de produtos para casa, Bernardo Mendonça acredita que as redes sociais têm sua influência no comportamento da clientela. “Muita gente passou a acompanhar lives ou perfis de chefs no Instagram e percebeu que ou não tinha todos os equipamentos necessários ou estava defasada em relação à tecnologia”, diz. “Sempre que aumenta o interesse por determinada atividade, crescem também as vendas de produtos relacionados a ela. Na cozinha não é diferente.”

Na Bel Lar, espaço especializado em reforma e construção, os itens mais procurados são aqueles para equipar a cozinha e a área gourmet, que conseguem fazer com que as pessoas tenham a experiência de um restaurante no conforto de casa. “Os clientes têm procurado cervejeiras, adegas, máquina de gelo, churrasqueiras”, conta a diretora Caroline Garcia. “O ‘cozinhar’ vem deixando, cada vez mais, de ser um simples ato do cotidiano para se tornar uma experiência gastronômica.”

O boom do mercado gastronômico extrapola o comércio. Percebendo a nova paixão dos belo-horizontinos, o chef Felipe Caputo criou em julho 2020 a Escola do Caputo, um curso on-line para pessoas que querem cozinhar em casa. Seu primeiro curso, de quatro meses de duração, com três aulas semanais gravadas, teve 1.500 inscritos. O segundo, um workshop de verão gratuito de 4 aulas, em novembro, atraiu 18 mil alunos. Nas aulas, o chef explora uma gama ampla de vegetais, temperos e especiarias, reduzindo a necessidade de ter a proteína animal como protagonista e a dependência dos produtos industrializados. “Foram até agora mais de 100 receitas, vários chefs convidados, dicas, truques e, claro, muita comida maravilhosa”, afirma. Para Caputo, o amor pela gastronomia que surgiu durante a pandemia deve se manter firme mesmo após o período de isolamento social. “A cozinha é muito apaixonante, reúne as pessoas e é uma forma de hobby e entretenimento. Uma vez que ela entra na sua vida, não tem como sair mais.”