Diretora do Twitter Next, Samantha Almeida cresceu na Rocinha e fez da diversidade seu pulo do gato

Quando criança, Samantha Almeida tornou-se uma exímia sonhadora. Ela atribui essa característica a dois fatos muito importantes. Um: seu pai trabalhava na Rede Globo e a levava para passear pela emissora, onde Samantha encontrava artistas, frequentava muito Xou da Xuxa e vislumbrava um universo parecido com o das novelas. Dois: sua mãe era Tânia Maria de Jesus Silva.

“Minha mãe era muito interessada em garantir que eu não tivesse limitações em relação às minhas perspectivas sobre o mundo”, diz Samantha, hoje diretora do Twitter Next Brasil, área do Twitter que desenvolve estratégias para marcas. “Hoje, a vida que tenho é algo com que sonhei muito na minha infância”, conta ela, que cresceu na favela da Rocinha, no Rio. Primeira pessoa da família a se formar em uma universidade, Samantha estudou em boas escolas graças às bolsas que o pai conseguia no trabalho. Fez cursos que não entende como a mãe conseguia bancar.

Única negra naqueles universos, logo se percebeu diferente. Mas a consciência do racismo estrutural veio muito tempo depois. Hoje, liderando uma área estratégica do Twitter que desenvolve campanhas e conteúdos para marcas, está em suas mãos ajudar a construir narrativas que combatam essa realidade.

Que imagens da sua infância você tem guardadas na memória?

Eu morava na rua Quatro da Rocinha, uma realidade de escassez. Mas minha mãe, que morreu há dois anos, era muito interessada em garantir que eu não tivesse limitações em relação às minhas perspectivas sobre o mundo. Hoje, a vida que tenho é algo com que sonhei muito na minha infância. Comunidade é um lugar muito animado, todo mundo mora muito perto. Passei muito tempo com essa noção de coletivo imposta. Óbvio que entendia que faltavam muitas coisas, mas essas faltas, quando se é criança, são normalizadas porque aquilo é tudo o que você conhece sobre o mundo. Hoje vejo que se eu não tivesse sonhado o tanto que sonhei, não teria feito.

E quando foi que você percebeu que a pobreza ou o racismo que você normalizava não deveria ser normal?

Você sempre sabe que tem alguma coisa acontecendo no mundo e que você não faz parte daquilo. Sou geração anos 80, fui criada pela televisão. E quando via as novelas, sabia que aquelas casas de pessoas pobres não eram reais, porque eu era pobre e não tinha aquela casa. Mas a percepção só veio muito mais tarde.

Muitas vezes cobramos dos grupos minorizados que tenham consciência sobre tudo: sobre o lixo, sobre sustentabilidade, sobre a realidade, sobre a pandemia. E essas pessoas estão ocupadas tentando sobreviver, sabe?

3 dicas para ser chefe
“Para mim, “chegar lá” é fazer pelos meus. Uma mulher negra, quando ascende, não costuma acumular riqueza, porque devolve para a rede que a colocou naquele lugar.”
sobre o que é alcançar o sucesso

“Esperam que você chegue com uma metralhadora de soluções, mas não caia nessa cilada. Eu posso dar um panorama, mas estou aqui para participar de grupos, ouvir, trocar.”
sobre não ter respostas

“Não esqueça que tem muita gente para estender a mão para você, que tem gente fazendo coisas muito legais e que tem gente bacana no mercado, mesmo que não tenham tanto repertório.”
sobre andar em grupo

Você hoje ocupa uma posição de liderança no Twitter. Teve modelos nos quais se inspirar?

Eu ressignifiquei muito o que é ser bem-sucedida. Duas pessoas foram fundamentais para isso. Primeiro, eu sempre vou falar sobre a fortaleza que era a minha mãe. Ela foi a maior administradora, professora, filósofa, economista que conheci na vida. E, embora tenha tido uma relação de abandono com os estudos, tinha uma concepção “paulofreiriana” de que a educação era transformadora. E me impunha isso como único modo de sobrevivência.

Por outro lado, meu pai trabalhava em emissoras de TV como Globo e a extinta Manchete. E sempre foi do estudo. Ele me levava para passear nas emissoras e aquilo era muito inspirador. Participei de muito Xou da Xuxa, tenho foto com o New Kids on the Block [risos]. Às vezes encontrava Antonio Pitanga, Zezé Motta e outras pessoas conversando e rindo e ficava pensando: nossa, olha essa gente!

Minha infância teve muito sonho. Eu não fazia parte das coisas, mas sabia que existiam. E saber que elas existem, de certa forma, é metade do caminho para fazer parte delas, porque você sabe que é possível.

Você fez faculdade de moda, mas acabou enveredando para outro caminho. Como foi isso?

Meu projeto original era ser advogada. Mas, no último ano antes do vestibular, dou esse “plot twist” e falo que vou fazer moda. Na época, era sobre pertencimento, não exatamente sobre moda. Fiz moda muito porque queria fazer parte daquilo, criar estéticas para que elas fossem validadas a partir da minha perspectiva. E entro na faculdade e ela me é revolucionária. Fiz Santa Marcelina, para criadores. Mas eu era uma péssima estilista. Ainda mais porque sou da geração do Dudu Bertholini, Adriana Barra, Igor de Barros, Wilson Ranieri, uma turma bem “high potential”.

Quando entrei na Levi’s, passei a fazer uma coisa que todo mundo odiava: viajar com o time de vendas pelo Brasil. Fui do Oiapoque ao Chuí. E voltava e falava: “Não adianta a gente fazer casaco assim, faz muito calor em tal lugar”. Montava relatórios e mandava para o global. Isso me levou para o marketing e, mais tarde, para a comunicação.

Houve algum episódio que você considere que foi essencial na sua carreira, o pulo do gato?

Foi quando fui para a Avon, depois de passar pela Estée Lauder. Estávamos fazendo tutoriais e eu sentia um incômodo no estúdio e não sabia por quê. Até que fui a um show da banda Uó. Sentada com a minha breja na mão, olhei a Mel [a vocalista, negra e trans] e pensei: caraca, é isso que está faltando. Está faltando essa beleza, essa cremosidade, essa garota. E entendi o que me incomodava: aquelas pessoas que estavam sendo fotografadas, ditando a beleza, não eram como eu. Falei para minha diretora: “Tem um mundo aqui fora e a gente está fazendo beleza como se fazia há dez anos”. E ela: “Vamos fazer diferente, o que de pior pode acontecer? A gente ser demitida?”

Em uma semana a gente estava no estúdio de novo com a própria Mel para filmar. Foi uma loucura. Estou falando de 2015, uma época em que esse debate não estava posto. Muita gente não entendia por que era tão relevante.

“Vou ser honesta: nem eu entendia muito. Botamos a campanha no ar com consciência de que era algo importante, mas sem noção do quanto seria essencial depois. Foi o primeiro grande conteúdo orgânico da história da marca. E a Mel passou a ser meu amuleto da sorte.”

Seu perfil no LinkedIn começava com a frase: “Estou desafiando status quo desde os meus primeiros dias”. O que você quis dizer?

Para algumas pessoas no nosso desenho social, não é permitido ter sonho. Sempre digo que minha história não é a do herói triste, com uma vida de abandono que conquistou tudo a duras penas. Tive suporte emocional ímpar da minha mãe, que me dizia: “Você nasceu para vencer, esse mundo é seu e o que não veio no pacote é uma questão de tempo”. Isso é muito raro. E sobre desafiar o status quo, penso sobre a Emilly e a Rebeca, duas crianças que brincavam na porta da avó e morrem com bala de fuzil.

Eu poderia ter sido Emilly ou Rebeca. Eu brincava na comunidade na porta da casa da minha mãe. Eu poderia ter sido atingida por uma bala de fuzil. Não falo de um lugar de observador, eu estive lá. Emilly e Rebeca poderiam ser minhas próximas estagiárias. Poderiam ser quem sentaria no meu lugar daqui a 20 anos. Mas elas não estarão lá.

Você não está acostumada a ver nessas cadeiras pessoas como eu, trançadas, que vêm da periferia e que não têm um olhar meritocrático.

Qual sua opinião sobre políticas de inclusão como resposta ao racismo histórico?

Acho obrigatório dar isso para as pessoas. Acredito plenamente que só com acesso à educação, ao saneamento, ao sustento emocional, à alimentação é que vamos ter uma sociedade melhor. O debate é importante e por isso eu vim parar em um lugar onde eu acho que o debate público é soberano.

E sobre a meritocracia, o que você pensa?

Posso provar que a meritocracia é uma mentira. Se ela fosse verdade, todas as pessoas que cresceram comigo seriam diretoras, presidentes de empresas. Eu nem era a mais esperta da minha geração, sabe? Em frente da minha casa tinha uma vala e, depois dela, tinha o André. Ele era um matemático brilhante, construiu uma casa em cima da árvore e um telefone pelo qual a gente se comunicava por frequência de rádio quando tinha 12 anos. É um garoto de favela que fez um rádio. Como vou acreditar em meritocracia se ele não é CEO de uma tech, se não é engenheiro da Nasa? Tenho ouvido mulheres negras, em posições grandiosas, me falando: “Tenho síndrome de impostora”. É justíssimo ter insegurança, o mundo está muito agressivo com as mulheres. Mas ninguém com uma trajetória dessas pode se sentir impostora.

Você disse que o mundo está doentio com as mulheres. De que formas você já sentiu isso na pele?

Nós, pessoas negras, nunca deixamos de vivenciar situações desagradáveis, vexaminosas, humilhantes. Estou terminando meu MBA e, em uma das aulas, a pauta era sobre a experiência do consumidor. O debate estava em altíssimo nível e perguntei: gente, vocês já se deram conta de que para o consumidor negro no Brasil essa experiência passa por medo e morte?

Porque quando vou ao supermercado, por exemplo, sempre garanto que estou com o celular bem visível na mão para que, ao colocá-lo na bolsa, as pessoas em volta percebam que ele é meu. Faço coisas assim conscientemente há 40 anos.

E qualquer pessoa negra faz isso porque nós fomos ensinadas. A experiência do consumidor no Brasil passa por olhar 300 mil vezes um homem sendo assassinado no supermercado e pensar que poderia ser seu pai.

Como seu trabalho pode ajudar a melhorar essa realidade?

Escolhi uma profissão na qual dialogo com as marcas introduzindo pensamentos sobre a importância de uma narrativa que inclua gênero, raça e classe. De uma maneira muito holística e sonhadora, penso que se eu conseguir fazer com que o maior número de gestores de marca entendam a importância de manter esse consumidor vivo, seguro e confortável, estou indiretamente protegendo os meus. E que meu irmão e meu pai vão poder ser bem tratados. Fui para o Twitter porque consigo ter uma base de dados sensacional sobre quais são as conversas relevantes para as pessoas. É a publicidade que diz o que deve ser amado e temido. Se conseguirmos construir narrativas nas quais deixemos de excluir as pessoas, será minha contribuição mais eficiente.

Quem foram as mulheres que a ajudaram a chegar onde você está?

No topo da minha lista de mulheres incríveis sempre vai estar a Rafaella Gobara, que foi minha gestora na Avon. E ela materializa muito o que muitas outras gestoras fizeram por mim, como a Fernanda Calvet, que foi minha chefe e era genial. Aprendi com a Rafa aquela coisa do episódio da Mel: o que de pior pode acontecer se arriscarmos? Ela teve uma generosidade que acho muito rara, de não procurar alguém como ela ao me escolher.

Em geral, contratamos ‘mini nós’ para ficarmos na zona de conforto. Um dia eu falei que não concordava com determinada coisa e não ia fazer aquela campanha. E ela disse: ‘Se está errado, conserta. Chamei você porque acho você a melhor do mercado. Arruma o que está errado’.

Qual a importância da diversidade para as empresas?

Vou dar um exemplo real. Certa vez ganhamos a conta de uma cervejaria que vendia muito para Norte e Nordeste, basicamente para a classe C. Ninguém entendia o produto. Montei então um time com pessoas que tinham a ver com aquela categoria. E essa equipe performava como um avião – e nenhum deles vinha das melhores universidades, nenhum tinha inglês fluente, nenhum tinha todas aquelas taglines consideradas como excelência. A gente precisa saber o que quer das pessoas para definir o que elas devem fazer.

Você que disse que era uma criança sonhadora. Quais são seus sonhos hoje?

Essa é a pergunta mais difícil. E se eu te falar que tenho tudo que poderia querer? Eu gostaria que mais pessoas pudessem ter a mesma trajetória de vida que eu tive, que tivessem mais oportunidades. Se eu continuar com o trabalho que tenho, o que vier é bônus.

Se eu pensar que, por mais que eu sonhasse, há 20 anos eu nem tinha uma carreira e há 10 anos eu não sabia onde eu estaria, penso que daqui a dez anos eu vou estar fazendo alguma coisa tão extraordinária que eu ainda não faço ideia do que seja [risos].Gostaria dar os mesmos pulos a cada dez anos como dei nos últimos dez.

Fonte: Universa/Uol