Demora para imunizar população e recrudescimento da pandemia deverão afetar o consumo

O recrudescimento da pandemia no Brasil, ao mesmo tempo em que o país fica para trás de outras nações no plano de vacinação, reforça a percepção dos analistas de quanto uma questão sanitária mal resolvida pode segurar o processo de retomada da atividade em 2021. A avaliação geral é de um primeiro semestre que deve andar mais “de lado”. Um calendário de imunização que comece a se concretizar, por sua vez, poderia ajudar o consumo e o mercado de trabalho a partir do segundo semestre, dizem economistas.

O aumento de casos e mortes por covid-19 eleva os riscos para a economia brasileira nos próximos meses, aponta relatório do Credit Suisse divulgado ontem. Os governos estaduais, provavelmente, terão de adotar restrições de mobilidade, o que terá impacto “substancial” na atividade e no emprego, escrevem a economista-chefe do banco, Solange Srour, e o economista Lucas Vilela.

O Credit Suisse calcula que o Brasil só chegará à imunidade de rebanho (pelo menos 70% da população imunizada) no quarto trimestre do ano que vem. Isso se o governo conseguir adquirir nos prazos previstos as vacinas produzidas pelos laboratórios Sinovac (Instituto Butantan), AstraZeneca (Fiocruz) e Pfizer / BioNTech.

O banco simulou a dinâmica da imunização a partir de três cenários de disseminação da doença: manutenção da atual média diária de novos casos (35 mil), queda pela metade (18 mil) e o dobro da média atual (70 mil). Em todos os cenários, a imunidade de rebanho só seria atingida no último trimestre de 2021.

Na simulação, as vacinas das três companhias seriam suficientes para imunizar 64,2% da população. No ritmo atual de novos casos, 9,6% dos brasileiros estariam imunizados devido à própria contaminação pelo coronavírus. Se o ritmo de disseminação caísse pela metade, 6,6% da população estaria imunizada assim. No caso mais extremo, de 70 mil casos ao dia, 15,6% da população seria contaminada até o quarto trimestre.

O governo federal, lembra o Credit Suisse, anunciou negociações para comprar 460,9 milhões de doses de vacina contra a covid-19 de cinco empresas. Além dos três laboratórios mencionados, há conversas com a Janssen (38 milhões de doses) e a Covax Facility (42,5 milhões). Nenhuma das negociações foi formalizada, contudo.

A ausência de um programa de vacinação imediata, somada ao necessário fim do auxílio emergencial e uma retomada mais lenta do emprego, faz o Banco Inter prever um começo de ano mais fraco para a atividade, segundo a economista-chefe Rafaela Vitória.

O Produto Interno Bruto (PIB) do primeiro trimestre não deve apresentar crescimento em relação aos três meses imediatamente anteriores, enquanto na comparação com o mesmo período deste ano ainda recuaria 0,50%, projeta ela. Rafaela lembra que a queda ocorreria sobre um primeiro trimestre de 2019 que já foi negativo. “Uma retomada do emprego mais robusta deve começar quando a vacinação estiver mais avançada”, afirma ela.

Paula Magalhães, economista-chefe da A.C. Pastore & Associados, afirma que o plano de vacinação é “imprescindível” para a atividade no ano que vem. Assim como o governo precisa reduzir as dúvidas fiscais, avançando na agenda de equilíbrio das contas públicas, é necessário um plano que reduza as incertezas da pandemia, diz Paula. “A gente fica esperando esse tipo de decisão. Não é uma decisão econômica propriamente, mas o efeito de um plano de vacinação sobre a economia é inegável.”

A expectativa, segundo ela, era que o consumo fosse, assim como nos últimos anos, um impulso para o crescimento de 2021, “mas as pessoas estão com medo de consumir por causa da pandemia, o que poderia ser melhorado com a vacina”, exemplifica.

Para Francisco Eduardo Pires de Souza, professor do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o aumento do consumo vai depender, acima de tudo, da “desinterdição” de importantes segmentos dos serviços e, portanto, do controle da pandemia.

“Se imaginar que até o meio do ano parte importante da população esteja vacinada, é esperado que o consumo cresça bastante no segundo semestre do ano que vem”, afirma.

Nesse sentido, porém, a existência de uma segunda onda da pandemia atrapalha, diz o professor. “No curtíssimo prazo, podemos ver uma piora. Se vierem novas restrições mais severas, pode ser um banho de água fria para o começo de 2021. Seja por isso, seja pelo fim do auxílio emergencial, devemos ter, provavelmente, alguma retração do PIB no primeiro trimestre”, afirma.

Solange e Lucas, do Credit Suisse, observam que a disseminação do coronavírus tem se acelerado no país, indicando possível aumento no número de mortes nas próximas semanas, em especial na regiões mais populosas da metade sul do Brasil, onde o número de casos por milhão de habitantes já é maior do que no pico da pandemia, em agosto. Ao mesmo tempo, os indicadores de mobilidade do Google apontam tendência de alta.

Eventuais medidas que restrinjam a circulação adotadas pelos governos regionais podem se traduzir em maior pressão para que o governo federal e o Congresso retomem a expansão fiscal para minimizar os efeitos dessas restrições sobre a renda, o emprego e também as receitas de Estados e municípios, avaliam.

“Novas restrições provavelmente terão efeito não apenas no curto prazo, com um menor crescimento econômico, maior desemprego e crescimento da dívida, mas também no médio prazo, ao adiar a discussão de temas importantes como a PEC Emergencial e a reforma administrativa necessárias para cumprir as regras fiscais em 2021 e 2022 e estabilizar a dívida nos próximos anos”, escrevem.

Fonte: Valor Econômico