Há quatro anos ocupando o cargo de presidente da Natura&Co na América Latina, João Paulo Ferreira nunca tinha visto nada igual. A pandemia do novo coronavírus despertou no executivo algo inédito: o temor de que os funcionários fossem contaminados e morressem. Ferreira buscou a orientação de médicos e especialistas. Despachou cinco mil pessoas para trabalhar em casa e mudou a rotina de boa parte do parque fabril, que passou a produzir sabonetes, álcool em gel e álcool.

Há quatro anos ocupando o cargo de presidente da Natura&Co na América Latina, João Paulo Ferreira nunca tinha visto nada igual. A pandemia do novo coronavírus despertou no executivo algo inédito: o temor de que os funcionários fossem contaminados e morressem. Ferreira buscou a orientação de médicos e especialistas. Despachou cinco mil pessoas para trabalhar em casa e mudou a rotina de boa parte do parque fabril, que passou a produzir sabonetes, álcool em gel e álcool 70 graus, em vez de produtos de beleza.

“Hoje não temos nenhum funcionário no hospital, nenhum óbito”, disse Ferreira, no início de agosto, respirando fundo, aliviado. Na força de vendas, houve mortes e a companhia, nesses casos, concedeu um auxílio-funeral. O executivo, engenheiro elétrico de formação, comanda 18 mil pessoas, distribuídas em quatro países – Brasil, Argentina, México e Venezuela. A produção é feita em seis fábricas, sendo três em território brasileiro.

A preocupação com a saúde dos funcionários veio acompanhada de uma certa confusão para estabelecer a nova rotina de trabalho. “Aprendemos tudo na vida…” diz Ferreira. A Natura adotou o trabalho remoto a partir de 16 de março. “Eu não era adepto de trabalho remoto e no início [do isolamento social] todo dia era dia de trabalho. Foi confuso”.

O executivo percebeu que seria importante estabelecer uma nova etiqueta para o trabalho, tanto para ele como para os funcionários. “Eu faço a barba, me visto, calço sapato”, diz dele, descrevendo a rotina que cumpre de segunda a sexta-feira, pela manhã. Assim, com a “roupa de trabalho”, Ferreira despacha os assuntos da Natura no escritório de sua casa, na Vila Madalena, bairro na zona oeste da cidade de São Paulo. No fim de semana veste camiseta e bermuda, para caminhar com a mulher e tocar violão com o filho.

Aos milhares de funcionários que estão trabalhando remotamente, Ferreira fez chegar a mensagem de que é importante limitar a carga de trabalho, ter horário para fazer as refeições. Ele também determinou que os computadores e cadeiras, que estavam sem uso na empresa, fossem levados para as casas dos empregados. Apoio psicológico também foi oferecido. O isolamento social, por meses a fio, pode causar ansiedade e depressão.

Ninguém sabe quando a pandemia vai passar, mas Ferreira diz que alguns dos hábitos adotados por causa da covid-19 devem ser incorporados para sempre. “Vou adotar o trabalho remoto e [no futuro] vai ser raro ter todo mundo na empresa ao mesmo tempo”. O contato físico entre as pessoas “é importante, para criar intimidade e confiança. Mas não precisa ser todos os dias, das oito às cinco”, diz ele.

O cenário que Ferreira traça para a economia brasileira neste ano é negativo. “O PIB [Produto Interno Bruto] vai cair, é inevitável”. Para 2021, a previsão é mais otimista. “O PIB deve voltar a crescer, timidamente, até 2% a 3%”, diz. O executivo espera que a agenda de reformas, em especial a tributária, volte a ser pautada pelo governo e votada no Congresso Nacional, o que poderia dar um impulso adicional ao nível de atividade.

Na Natura, enquanto perdurar o clima de incerteza em relação aos rumos e efeitos da pandemia, Ferreira vai ser mais cauteloso quanto aos investimentos. “Não vamos cumprir a totalidade do que estava orçado”, diz. O plano de expansão da rede de lojas físicas é citado como exemplo de área onde o ritmo de gastos será menor. Mas vai haver mais recursos para a área de tecnologia voltada ao comércio on-line.

“Vamos acelerar muito a digitalização, o uso de ferramentas digitais”, diz Marques. O grupo anunciou que, a partir de agosto deste ano, vai deslanchar um programa de investimentos de R$ 400 milhões cujo foco é a área digital e que deverá durar seis meses. A companhia ainda vai decidir a fatia desse valor destinada à operação brasileira.

Assim como várias empresas de bens de consumo, a Natura vem reagindo ao consumidor que ampliou suas compras ou que aderiu agora ao varejo on-line por causa da pandemia. As vendas pela internet cresceram 225%, embora no segundo trimestre, a receita global do grupo, que inclui Natura, Avon, The Body Shop e Aesop, tenha encolhido 13%, em relação a igual período de 2019.

Fonte: Valor Econômico