Para economista do Ibre, crescimento de 3,5% para este ano é “fraco” e viés é de alta, se o cenário positivo se concretizar

O crescimento na faixa de 3,5% esperado para o Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil este ano é bastante fraco e o viés nessa projeção é para cima, mas para que um cenário mais positivo e com retomada mais forte se concretize, “a melhor política econômica é a da vacina”. A avaliação é de Armando Castelar, coordenador de Economia Aplicada do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV), que foi o convidado de ontem da Live do Valor.

Segundo Castelar, 2021 será um ano de duas metades bem marcadas para a economia brasileira, com um primeiro semestre “muito triste” e um segundo semestre “mais animado” por causa da vacina. Até lá o nível de atividade estará sob efeito de contração fiscal, devido ao fim do auxílio emergencial, e também das incertezas sobre o processo de vacinação.

“O quão triste o primeiro semestre vai ser depende de coisas que não dominamos: de quanta vacina vai ter, de quantas pessoas vão querer se vacinar. São coisas complicadas de prever”, disse Castelar, que destacou, também, o ponto de partida favorável deixado pelo ano passado para o crescimento de 2021. Dos cerca de 3,5% previstos para a expansão do PIB, 2,8% se deveriam somente ao carregamento estatístico do fim de 2020, estimou.

“Mas nem tudo são notícias ruins”, ponderou. Para ele, o setor externo será um impulso à atividade este ano. Commodities como soja, minério de ferro e petróleo, que o país exporta, estão em alta, o que atrairá investimentos. Além disso, segmentos que já mostraram recuperação, como a indústria de transformação e as vendas de alguns ramos do comércio, devem continuar com bom desempenho, avaliou. Do lado negativo, a fraqueza dos serviços pessoais e do setor de transportes continua “segurando” a economia, observou Castelar, e isso só vai mudar quando a pandemia estiver controlada.

“O que faz o PIB não estar crescendo são serviços do governo, particularmente aulas, e serviços pessoais. Para isso não adianta dar estímulos, porque não resolve o problema de contágio da covid. O que resolve é a imunidade.” Em sua visão, a melhor política econômica no momento seria “a da vacina”.

A relativa ineficiência dos estímulos ficou clara, na avaliação de Castelar, ao longo de 2020, quando houve forte aumento da poupança das famílias, apesar dos incentivos fiscais. Para ele, a geração de empregos vem se recuperando desde meados de 2020, mas de um patamar muito baixo. A tendência é que essa trajetória continue, mas ao mesmo tempo haverá alta da taxa de desemprego, porque muitas pessoas vão voltar a buscar ocupação após a retirada do auxílio.

Há muita discussão entre especialistas sobre qual será o destino da “poupança precaucional” feita na pandemia, lembrou o coordenador do Ibre/FGV. Em sua percepção, que, ponderou, é apenas uma especulação, “quando houver sintomas de imunidade coletiva, as pessoas vão tirar férias, vão a festas, vão sair e gastar como nunca na vida.”

Ele se disse pouco otimista com a aprovação de reformas estruturais. “Acho que vamos viver um congelamento dessas reformas.”

Fonte: Valor Econômico