Grupo planeja aumentar investimentos em 2020

O Mercado Livre, maior plataforma do país de “marketplace” (shopping virtual que expõe produtos vendidos por terceiros), vai acelerar a venda direta para se tornar mais competitivo, disse ontem Stelleo Tolda, presidente da companhia na América Latina, na “Live do Valor”. Até então, essa operação era vista como menos relevante pelo grupo.

Com isso, a empresa faz movimento inverso ao de rivais como Magazine Luiza e Via Varejo. Ambas são companhias que nasceram e se expandiram por meio da venda direta de mercadorias e buscam hoje uma fatia maior do mercado de marketplace, explorado há duas décadas pelo Mercado Livre.

Tolda conta que a venda de produtos comprados pelo grupo ganhou força a partir desta Black Friday e ainda representa pouco menos de 10% do faturamento. A companhia não informa uma taxa como meta, mas busca um equilíbrio um pouco maior na venda de itens de lojistas e próprios. É uma forma de ganhar terreno em categorias nas quais vendedores parceiros podem não estar atendendo tão bem, com baixa disponibilidade de produtos ou de lançamentos, dizem especialistas.

“A empresa virou referência em produtos de baixo valor, mas em bens de consumo pesado, como geladeiras ou uma TV de R$ 5 mil, R$ 6 mil, ele é mais fraco. O que a pessoa física não pode entregar, ele sente falta”, diz Roberto Wajnsztok. CEO da Origin Consultoria. “A venda direta não vai ser um diferencial para a empresa, mas compõe o portfólio. E eles vão colocar um foco maior naquilo que cresce pouco, onde há espaço para taxas mais altas de expansão”, diz.

Segundo Tolda, foi o primeiro ano da companhia como vendedora [de itens próprios] na Black Friday. “Nossa atividade nessa área é muito recente, tem cerca de um ano, e a entrada [na venda direta] está relacionada com questões de estoque”, diz. “Essa foi uma Black Friday com dificuldade [para se obter] estoque, foi um ano atípico na cadeia de suprimentos. Atuar como vendedor nos garantiu ter estoques e competitividade de preços”. Com a pandemia, a indústria reduziu produção, faltaram certos itens nas lojas, e quem operou mais estocado, com relação próxima dos grandes fabricantes, ganhou mais mercado neste ano.

Para efeito de comparação, apesar do crescimento do marketplace, no Magazine Luiza a venda direta equivale a 75% do movimento total do on-line e na Via Varejo é 80%. O restante equivale à fatia do marketplace. Na B2W (com marcas como Submarino e Americanas.com), 40% da venda é direta.

Questionado sobre o fato de acabar concorrendo com os vendedores da plataforma, Tolda diz que o grupo procura atuar em segmentos em que seus vendedores têm pouca presença, o que evita conflitos. “Quando a gente olha para o mercado como um todo, já temos ‘players’ do varejo de venda direta entrando no marketplace, e com esse negócio ganhando participação. Mas nem por isso, tem causado embaraço e problemas. Isso também vale para nós.”

O Mercado Livre vai ampliar os investimentos em 2021, com estimativa preliminar de um aumento de 20% sobre os R$ 4 bilhões desembolsados neste ano. Os recursos devem ser destinados para logística, sistemas e marketing.

Sobre a Black Friday ocorrida na semana passada, o executivo disse que a companhia conseguiu ganhar participação de mercado no evento. Neste ano, de quinta-feira a domingo houve alta de 130% no volume vendido pelo grupo sobre 2019. Segundo a consultoria Ebit/Nielsen, o varejo on-line cresceu 25% em vendas no evento, mas a taxa exclui os números do Mercado Livre. Relatório da equipe de analistas do Bradesco, publicado na segunda-feira, calculou que, ao incluir nesse número uma projeção de vendas do Mercado Livre, o índice passa para cerca de 40%. Sobre o número, Tolda considera a projeção do banco aceitável.

No Brasil, no terceiro trimestre, a receita da empresa subiu 112%, para cerca de R$ 3,4 bilhões (quase US$ 611 milhões), considerando o câmbio do fim do período. No segundo trimestre, a alta foi de 87%.

Tolda disse ontem também que a empresa não tem interesse em comprar os Correios. “Não sei de onde surgem especulações, mas suspeito que algumas venham até do próprio governo para gerar um possível interesse maior no ativo. Não temos interesse em comprar os Correios. Temos interesse que continuem a funcionar e melhorem o nível de serviço”, afirmou.

Ele acha improvável que outras empresas do setor tenham interesse na estatal. O Magazine Luiza e a Amazon foram citados como interessadas por representantes do governo. “Empresas de varejo não têm interesse em comprar uma empresa complexa como os Correios. O que entendo é que caso alguém compre, terão que falar conosco pela importância nossa no negócio”. A estatal responde por cerca de 20% do volume de entregas do grupo.

Fonte: Valor Econômico