Em março, o IPC-C1, que mede a variação de preços de produtos e serviços para famílias com renda entre um e 2,5 salários mínimos, acelerou para 0,82%, vindo de 0,40% no mês anterior

A inflação da população de baixa renda deve seguir em processo de aceleração no acumulado em 12 meses até o fim do primeiro semestre. A afirmação é do economista André Braz, coordenador do IPC do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), para quem esse acumulado em 12 meses pode chegar em junho ao redor de 8%, contra os atuais 6,63%.

Braz explica que no primeiro semestre do ano passado, apesar de uma forte pressão dos alimentos sobre os preços — o que tem especial influência na cesta de compra das famílias de renda mais baixa — o panorama geral da inflação foi de preços comportados, principalmente em serviços. Este ano, os alimentos não pressionam tanto, mas os demais grupos mostram patamares maiores de inflação.

Em março, o Índice de Preços ao Consumidor – Classe 1 (IPC-C1) — que mede a variação de preços de produtos e serviços para famílias com renda entre um e 2,5 salários mínimos — acelerou para 0,82%, vindo de 0,40% no mês anterior. O indicador geral, IPC-Br, que abrange famílias com renda de um a 33 salários mínimos mensais, seguiu acima do dado segmentado e ficou em 1,00% no mês passado, vindo de 0,54%.

Ainda assim, o IPC-C1 acumula alta superior à do IPC-Br em 12 meses, 6,63% contra 6,10%, respectivamente.
“Até junho, inflação das famílias de baixa renda vai acelerar. Ano passado houve números muito baixos para inflação no primeiro semestre, mesmo com alimentação acelerando. Esse ano, ainda que exista um viés de desaceleração dos preços nos meses à frente, o esperado é de resultados acima dos registrados no ano passado ao longo do primemiro semestre”, diz Braz, frisando que o acumulado em 12 meses pode chegar a 8% em junho.

A partir de junho, explica o economista, como houve avanço de preços forte no segundo semestre do ano passado, a tendência é que o acumulado em 12 meses passe a desacelerar. Para o ano cheio, Braz estima um IPC-C1 na casa dos 6%, enquanto o IPC-Br deve ficar ao redor de 5,1%.

Em março, a aceleração do IPC-C1 frente ao mês anterior foi explicada principalmente por gasolina, etanol e gás de botijão. Juntos, os três produtos têm peso de 6,34% no IPC-C1. A gasolina, com peso de 3,9%, subiu 10,9% no mês passado, enquanto o etanol, com peso de 0,34%, subiu 17,11%. Já o gás de botijão, que pesa 2,1%, avançou 4,07%.
Braz lembra que o gás de botijão é o principal insumo energético para as famílias de baixa renda e contribuiu para a aceleração do grupo Habitação, que passou de 0,17% em fevereiro para 0,80% em março. Segundo ele, a alta do botijão, somada ao avanço de 1,04% do aluguel — que pesa 5,1% no IPC-C1 — explicam esse avanço da Habitação em março.

Já a gasolina e o etanol contribuíram para a aceleração do grupo Transportes em março, que passou de 2,18% em fevereiro para 3,52% no mês passado. Enquanto a gasolina e o gás de botijão se explicam pela alta do petróleo no mercado internacional, o etanol cresceu também pela demanda internacional por açúcar, mas também como efeito da própria gasolina, cujo aumento de preços eleva a demanda, e os preços, do etanol.

No grupo de Alimentos, que teve deflação de 0,09% em março depois de já ter registrado queda de 0,04% em fevereiro, Braz destacou a desaceleração da carne bovina, que foi de 0,82% em fevereiro para 0,53% no mês passado; a queda de 2,5% do leite longa vida em março depois de um recuo de 4,3% em fevereiro; e da deflação de 1,4% do arroz, depois de queda de 1,9% em fevereiro; enquanto os açúcares desaceleraram de 1,7% para 1,15% no mesmo período.

“Vemos os itens da cesta básica caírem de preço ou subirem menos”, ressalta Braz.

(Esta reportagem foi publicada originalmente no Valor PRO, serviço de informações e notícias em tempo real do Valor Econômico)

Fonte: Valor Investe