Efeitos negativos da entrada no mercado de trabalho em período de recessão tendem a ser duradouros

Tradicionalmente, os jovens já são os que têm maior dificuldade de inserção no mercado de trabalho. Numa crise, a situação piora, diante da concorrência de profissionais mais experientes e dispostos a ganhar menos. Na pandemia, a condição é ainda mais crítica, já que o setor de serviços, um dos grandes empregadores, foi profundamente atingido.

Os números mostram que os jovens tiveram avanço expressivo no desemprego e a maior perda de renda entre as faixas etárias no ano passado, situação que ainda deve se agravar neste início de 2021.

Mais do que o impacto no curto e no médio prazos, no entanto, o que preocupa os especialistas são as marcas que esta geração carregará ao longo de sua vida profissional, o chamado “efeito cicatriz”. Um detalhe que complica o cenário é o fato de que a pandemia veio quando a atividade econômica no país pouco tinha se recuperado da recessão recente, o que já afetava a busca por trabalho.

“O jovem não é uma grande vítima da pandemia do ponto de vista sanitário, mas é do mercado de trabalho. Ele sentirá o impacto na sua vida profissional. Eles começam a trajetória em um ponto mais baixo e a curva de ascensão profissional fica comprometida”, afirma Marcelo Neri, diretor do FGV Social.

Levantamento feito pelo economista mostra que a renda dos adolescentes (15 a 19 anos) e dos jovens (tanto os mais novos, entre 20 e 24 anos, quanto os mais velhos, entre 25 e 29 anos) caiu 34%, 25% e 22%, respectivamente entre o primeiro e o terceiro trimestres de 2020. O ritmo é bem superior ao da média dos trabalhadores (18%). “A desigualdade da renda do trabalho aumentou. O grande medo da pandemia era com o desemprego, mas a renda dos ocupados caiu muito”, aponta Neri.

Fonte: Valor Investe